segunda-feira, 11 de novembro de 2013
Não destrinçava com facilidade de onde lhe chegava grande parte do ruído. Se dos autocarros que dias inteiros se atropelavam nas faixas só deles, se das pessoas atabalhoadas e afoitas por um lugar nesses mesmos autocarros, ou se dos pedaços de vidro incontáveis que lhe rebentavam dentro do peito, qual campo minado. A cada passo, um corte no pé, no outro pé, sangue e mais sangue e cortes que não estancam.
Como margens de rio, sempre paralelas, sempre lado a lado, sempre sem se tocarem. Nunca, sempre, nunca, sempre. Uma impermanência impiedosa do ímpeto pelo futuro, da procura das respostas, o tudo ou nada que decide uma vida. O saltar do penhasco ou o recolher do corpo e das memórias para o tempo que dura uma eternidade, um espaço infinito de saudade e de ausências composto.
quarta-feira, 6 de novembro de 2013
O maior passo que dei de forma significativa rumo ao que tenho dentro, foi no dia em que percebi que o meu enorme iceberg ainda estava com apenas 10% de massa à superfície. E toda a gente sabe que os icebergs são um perigo constante à navegação. Mas o erro que cometi logo a seguir e até há bem pouco, foi o de achar que os restantes 90% iam deixar de estar submersos rapidamente.
Errada, claro está.
A chamada ponta do iceberg é mais aguçada do que o desejado, mais do que gosto de admitir. E agora, é deixar fluir um degelo lento, mas progressivo, pois que um dia chegará em que não serei mais gelo, nem 10% de fachada e 90% de verdades ocultas. O passado pesa. Pesa muito, porra. E vem-nos de dentro, de cada órgão, de cada gota de sangue, viral e perigoso, para nos consumir se assim o deixarmos. Não quero explodir-me um dia nas mãos, quero levar-me devagar do presente ao futuro, onde um tempo virá em que será tranquila a existência de um passado. E aí não serei mais réstia de gelo, senão água que corre limpa, rápida, cristalina.
terça-feira, 5 de novembro de 2013
Oswaldo Montenegro
Que a força do medo que tenho
Não me impeça de ver o que anseio
Que a morte de tudo em que acredito
Não me tape os ouvidos e a boca
Porque metade de mim é o que eu grito
Mas a outra metade é silêncio.
Que a música que ouço ao longe
Seja linda ainda que tristeza
Que a mulher que eu amo seja para sempre amada
Mesmo que distante
Porque metade de mim é partida
Mas a outra metade é saudade.
Que as palavras que eu falo
Não sejam ouvidas como prece e nem repetidas com fervor
Apenas respeitadas
Como a única coisa que resta a um homem inundado de sentimentos
Porque metade de mim é o que ouço
Mas a outra metade é o que calo.
Que essa minha vontade de ir embora
Se transforme na calma e na paz que eu mereço
Que essa tensão que me corrói por dentro
Seja um dia recompensada
Porque metade de mim é o que eu penso mas a outra metade é um vulcão.
Que o medo da solidão se afaste, e que o convívio comigo mesmo se torne ao menos suportável.
Que o espelho reflicta em meu rosto um doce sorriso
Que eu me lembro ter dado na infância
Por que metade de mim é a lembrança do que fui
A outra metade eu não sei.
Que não seja preciso mais do que uma simples alegria
Para me fazer aquietar o espírito
E que o teu silêncio me fale cada vez mais
Porque metade de mim é abrigo
Mas a outra metade é cansaço.
Que a arte nos aponte uma resposta
Mesmo que ela não saiba
E que ninguém a tente complicar
Porque é preciso simplicidade para fazê-la florescer
Porque metade de mim é plateia
E a outra metade é canção.
E que a minha loucura seja perdoada
Porque metade de mim é amor
E a outra metade também.
Que a força do medo que tenho
Não me impeça de ver o que anseio
Que a morte de tudo em que acredito
Não me tape os ouvidos e a boca
Porque metade de mim é o que eu grito
Mas a outra metade é silêncio.
Que a música que ouço ao longe
Seja linda ainda que tristeza
Que a mulher que eu amo seja para sempre amada
Mesmo que distante
Porque metade de mim é partida
Mas a outra metade é saudade.
Que as palavras que eu falo
Não sejam ouvidas como prece e nem repetidas com fervor
Apenas respeitadas
Como a única coisa que resta a um homem inundado de sentimentos
Porque metade de mim é o que ouço
Mas a outra metade é o que calo.
Que essa minha vontade de ir embora
Se transforme na calma e na paz que eu mereço
Que essa tensão que me corrói por dentro
Seja um dia recompensada
Porque metade de mim é o que eu penso mas a outra metade é um vulcão.
Que o medo da solidão se afaste, e que o convívio comigo mesmo se torne ao menos suportável.
Que o espelho reflicta em meu rosto um doce sorriso
Que eu me lembro ter dado na infância
Por que metade de mim é a lembrança do que fui
A outra metade eu não sei.
Que não seja preciso mais do que uma simples alegria
Para me fazer aquietar o espírito
E que o teu silêncio me fale cada vez mais
Porque metade de mim é abrigo
Mas a outra metade é cansaço.
Que a arte nos aponte uma resposta
Mesmo que ela não saiba
E que ninguém a tente complicar
Porque é preciso simplicidade para fazê-la florescer
Porque metade de mim é plateia
E a outra metade é canção.
E que a minha loucura seja perdoada
Porque metade de mim é amor
E a outra metade também.
terça-feira, 29 de outubro de 2013
“Não fosse o amanhã, que dia agitado hoje seria”, li hoje algures.
Verdade. Tão verdade que dói. Porque se não fosse o medo do amanhã, o receio do depois, o antecipar de todos os riscos e de todos os perigos, a agitação do dia de hoje seria deliciosamente incomensurável. E de todos os beijos que quero beijar, de todos os abraços que quero abraçar, de todas as palavras que quero sussurrar e de todos os aconchegos em que me quero aninhar seria feito o meu dia. E de todo o amor que até agora não dei, com medo da aterradora negativa que sempre se faz omnipresente a cada conversa, a cada redescoberta, a cada partilha de que afinal não se estava à espera. Essa malvada negativa, que assusta mais do que a ausência que já existe, e à qual - mal ou bem - já nos habituámos por força das circunstâncias. Mas o facto de estarmos habituados a uma coisa, não significa de todo que gostemos dela. E por isso, à ausência que habitual se fez não se pode permitir a implantação de raízes. É passageira, temporária, e há-de dar azo a outras presenças, felicidades, momentos partilhados que tanto enchem e aquecem o coração.
A cada dia que passa, sinto-me mais e mais implodir dos beijos que não beijo, dos abraços que não abraço, das palavras que (ainda) não te sussurrei, dos aconchegos a que (ainda) não me permiti. Pois se só hoje houvesse, sem sombra nem ameaça de um amanhã amanhecido, com um toque de lábios calaria as somas e as subtracções, as projecções de risco e todas as aritméticas do sentir. Fazer contas é preciso, mas cansa. Isto quando não nos deixa mesmo esgotados e à beira da exaustão. A minha conta sei de cor qual é, tão simples que é de fazer, tão intensa que é de sentir.
1+1 = 2
Porque não fosse o amanhã, que dia agitado hoje seria…
quinta-feira, 24 de outubro de 2013
Ar dentro.
Ar fora.
Ardentroarforaardentro.
Fecho os olhos, e dou-me uma oportunidade mais de tentar encher os pulmões de ar. O espaço que devia ter dentro está demasiado ocupado de memórias, de fotografias rasgadas, músicas ouvidas pela metade, refeições que acabam com todos os pratos e todos os copos partidos pelo chão. Um força aleatória de ar é por fim bem sucedida em explodir em vida nos meus pulmões, que tanto dela precisam para me oxigenarem o coração, para me oxigenarem o pensamento. No purgatório que é todo este ritual, nunca sei quando será a última ou a próxima vez em que conseguirei fazer com que o meu corpo respire, em que a matéria reaja. A cada tentativa, temo ou anseio que seja a última vez que me sinto insuflar. Porque nunca como desta vez o corpo havia caminhado a par e passo com a mente. E agora tudo dói, o ar que não circula, o coração que se contrai, os olhos que se fecham com violência. Sei o que me falta para esfaquear este elefante que acampou no meio do salão. Sei, e tremo de o saber. A verdade é crua de mais, e o meu corpo fraco de mais para a abraçar uma vez mais. Desvelado o deixo, intimamente desejando que as águas desta chuva interminável o sorvam gota a gota, para dele não mais haver rasto que o denuncie.
domingo, 20 de outubro de 2013
The business of life is the acquisition of memories. In the end, that's all there is.
Mr. Carson, Downton Abbey
Sempre que confeccionava um prato novo, uma sofrida antecipação em ansiar a tua aprovação, o garfo mais exigente que já me passou pelas mãos. Na descoberta de uma série nova que valesse muito a pena, a excitação de a partilhar contigo, quando tu muito provavelmente já tinhas chegado ao terceiro ou quarto episódio. E a cada pequena vitória ou a cada grande conquista, uma vontade louca de dividir contigo essas alegrias de que se faziam alguns dias. Guerrilhas eternas em torno das refeições, porque a tosta de frango já soava a repetido, e a salada de polvo talvez fosse um acto negligentemente heróico para primeira refeição do dia. "Levo casaco? Achas que vou ter frio? Levo gorro? Ténis ou chinelos? Esta camisola ou antes aquela?" Não sei, despacha-te, que o que mais quero é ir apanhar sol! Mas bem lá no fundo, deliciar-me dessas indecisões que te faziam dependente da minha opinião, afinal tão importante no frio que ias sentir ou se devias ou não tapar a cabeça com o tal do gorro. Incontáveis os beijos que perdia para os mais que muitos esquissos espalhados pela casa, ou para as letras que escrevias hipnotizado em frente ao teu adorado Mac. Mas cada beijo não recebido valia a pena, pois desses beijos que deixámos suspensos no tempo, se construiu um dia atrás do outro uma admiração por um lado artístico tão inevitavelmente atraente, tão irremediavelmente viciante.
E é destas aquisições de memórias - umas certamente mais relevantes e úteis que outras - que se alimenta um sentimento quando se ama alguém. E são também estas memórias que nos tolhem o discernimento quando o que está em causa é um processo de esquecimento do qual depende a nossa sobrevivência, o manter a cabeça à tona da água. Tudo, mas tudo se complica, quando se confunde a alimentação desse sentimento, com o amor às memórias do que se viveu.
E no fim de contas, o que prevalece afinal? Será o amor, ou será a força atroz das memórias, que num movimento centrípeto e quase impossível de contrariar, não nos deixam delas escapar? Porque como diz o Carson, e bem... In the end, that's all there is.
sexta-feira, 18 de outubro de 2013
Ego(s)
| Photo @ Ana Ribeiro Lages 2013 Sevilha |
Esfreguei a minha pele com quanta força tinha. Calquei-a forte contra o chão, raspei-a com violência contra as paredes, sangrei-a sem dó nem piedade em arestas afiadas. Queria arrancar a pele tua que resistia ainda na minha. Queria rasgar-te para fora de mim, desventrar-te das minhas entranhas e desfeita ficar, mas só eu, sem artes nem manhas, nem facas afiadas para me apunhalarem. Sim, apunhalarem, que do amor tantas vezes se faz sangue, vísceras são expostas, interiores são revolvidos para nunca mais voltarem a ser o que sempre eram. Das palavras fazer vento, e não as deixar entrar pelas brechas e chegarem fundo, onde alegram e fazem doer. E do vento não respirar uma molécula só, que à mínima falência do espírito, e juro ser capaz de me desfazer no calor do teu colo, e de lá não mais acordar para o que uma vez fui. Vi-te esfumaçares-te entre os pós da praia, vi-te bebido em tantos copos em noites que não acabavam mais, vi-te fumado nos incontáveis cigarros das tardes aflitas. E depois de te ver e fazer desaparecer tantas e tantas vezes, degolas-me uma vez mais sem sombra de misericórdia que te tolde o olhar. Frio, egoísta, ditatorial. E eu, escrava desses pesares de amor de que me arrasto, vergo-me ante tamanha violência, destemida que sou também eu. Se me tocas com um dedo só, desfaço-me. Sem promessas que das cinzas venha a renascer, entrego nas tuas mãos o condão de me encontrares. Não sou anjo nem fada, tenho costas e de asas nunca ouvi falar. Sombra também tenho, deixo-a por onde passo em Lisboa quando passo, entre um ponto e o outro. Segue o meu rasto, hei-de lá estar.
quarta-feira, 16 de outubro de 2013
Quando o motivo me encontrar,
vou pensar em assentar,
fazer a roda girar
despir, beber , fumar
Só mais um gole, só mais um bafo (sim, outra vez)
E sem embaraço, cair num desabafo do teu abraço.
vou pensar em assentar,
fazer a roda girar
despir, beber , fumar
Só mais um gole, só mais um bafo (sim, outra vez)
E sem embaraço, cair num desabafo do teu abraço.
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| photo @ JP.Fernandes notaloneinmybrain |
terça-feira, 15 de outubro de 2013
Cards on the table
We're both showing hearts
Risking it all though it's hard
All of me, John Legend
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| photo @ Clickt 2013 | www.clickt.com.pt |
A vida inteira esperei por ti.
Sabia que de uma maneira ou de outra, caminhávamos trágica e irremediavelmente na mesma direcção, todos os segundos, minutos, horas, todo o tempo. Sempre na direcção um do outro, em inevitável rota
de colisão. Um trajecto que nos faria explodir um contra o outro para não mais nos reconhecermos como eu nem como tu, mas como uma matéria só, inextricável, una e perfeita. Verdades há que o destino demora a desvendar, evidências que demora a entregar a quem de direito. Mas quando dessas evidências se cumprem premissas com que sonhámos em cada acordar e a cada adormecer, nada mais importa. Nenhuma mágoa, nenhuma desilusão, nenhum desapontamento. Nem os beijos que ficaram por beijar, nem os abraços por abraçar. Desfazem-se as ansiedades numa melancolia recíproca, e enrolados um no outro ficamos quietos e em paz, sabendo que do amor que hoje vivemos, amanhã nos havemos de multiplicar, plenos, realizados, felizes.
sábado, 12 de outubro de 2013
Leu, releu e voltou a ler, mil vezes as quinze palavras, arrumadinhas umas atrás das outras, enigmáticas, provocantes, delicodoces. Memorizou-as uma a uma, a vírgula e o ponto final.
Às vezes, passo aqui na tua rua só para te dizer um olá em segredo.
Às vezes, passo aqui na tua rua só para te dizer um olá em segredo.
Às vezes, passo aqui na tua rua só para te dizer um olá em segredo.
E riu-se por dentro ante tamanha ironia. Quantas vezes ficara ela própria prostrada na varanda, por companhia a ponte e o Cristo. Quantas vezes ficara ela própria sentida na varanda, na esperança de o ver passar para lhe dizer um olá.
E afinal ele passava, e ela sem saber.
E afinal ela esperava, e ele sem querer saber.
segunda-feira, 7 de outubro de 2013
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| photo @ JP.Fernandes notaloneinmybrain |
Acendo mais um cigarro enquanto penso em ti mais uma vez e no contraste intrigante que é o meu corpo e o teu emaranhados um no outro. Tenho o teu
cheiro entranhado na pele e por muitas voltas que dê, não consigo sentir o
cheiro que é o meu. Só o teu, denso e calcado fundo. Nem o fumo do cigarro que
se desfaz entre os meus dedos se lhe sobrepõe, qual soberania de odores à qual
não consigo ficar imune.
As palavras que te colocaram na boca, despeja-las com
mestria em cada ponto do meu pescoço, ponto de partida indelével para os
centímetros mais que se adivinham. Ciente dessa falsa magia em que julgas que
me envolves, visto-me de ingenuidade enquanto me despes subtil e obstinada,
numa delicadeza que só os corpos tinge, sem nunca chegar a ameaçar
verdadeiramente os sentimentos. De pedra revesti as batidas, o sangue, as
artérias e todos os componentes do coração que tenho dentro. Um intrincado
sistema de defesa, difícil de desarmar, impossível de ludibriar, mas cheio de
falhas na iminência de explodirem nas mãos de quem as ousar perscrutar.
quarta-feira, 2 de outubro de 2013
baixava uma lei:
Mãe não morre nunca,
mãe ficará sempre
junto de seu filho
e ele, velho embora,
será pequenino
feito grão de milho.
Carlos Drummond de Andrade,
'Lição de Coisas'
Aquele nó inextricável na garganta, que já conheço melhor que ao sangue que me corre nas veias. Esse, não sei que alguma vez o hei-de chegar a conhecer verdadeiramente. Não agora, que já não estás cá.
Mas o nó na garganta conheço-o de trás para a frente.
Um nó que inevitavelmente me traz lágrimas aos olhos, para depois caírem num colo onde nunca secam. Um colo que já não tem colo onde cair. Nunca teve. E num destes dias, do nó se fizeram lágrimas outra vez. E já tinha passado muito tempo, talvez tempo demais, desde que tinha deixado cair estas lágrimas por ti. Foi quando o percebi que me entreguei às evidências e me permiti o choro que andava a calar há tanto tempo. Porque já são mais os dias que passam sem que pense em ti e na saudade que deixaste, do que os dias que sofro por não te ter para abraçar, para rir e para me zangar.
Sim, para me zangar.
Que de me ter zangado tão poucas vezes contigo, hoje zango-me muitas vezes comigo, e com pessoas que não te conhecem de lado nenhum e nem sabem que me zango com elas por me ter zangado tão pouco contigo. Confuso? Pois, também achei quando mo explicaram. Mas afinal fazia todo o sentido. Porque há zangas que é preciso ter, e eu que nunca me quis zangar contigo, mãe, nunca. Sempre te quis protegida, amada, cuidada, feliz. E zanguei-me tão, mas tão pouco...
E chorei porque achei triste já não pensar em ti tantas vezes. Deve ser mais um dos meus automáticos mecanismos de defesa, desses em que já sou mestra desde que aprendi o que era o sofrer e sobre os quais podia dar prestigiadas palestras sem tremer a voz uma vez que fosse.
Mas a vida tem maneira estranhas de te trazer até mim de vez em quando. E hoje, um like numa foto minha e tua despoletou uma adorável corrente de beijinhos, abraços e corações de que não estava à espera. E em cada um deles, senti um beijo teu, um abraço teu, o teu coração colado ao meu. Como se de alguma maneira me gritasses
estou aqui, não te esqueças de pensar em mim
Eu NUNCA hei-de deixar de pensar em ti, mãe. Só não posso prometer fazê-lo todos os dias. Porque mesmo passados seis anos, continuas a doer-me, e ainda não consigo vislumbrar um dia em que a tua partida venha a ser apenas mais uma das muitas pedras que já conto no caminho.
quarta-feira, 25 de setembro de 2013
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| photo @ JP.Fernandes notaloneinmybrain |
In waves the ships have all sailed to the sea
Well do you wanna wait or leave with me tonight
Cross your heart and pray the ocean will take us all the way in...
Deftones, Bloody Cape
Uma deriva sem amarras nem portos, sem faróis nem faroleiros. Tempestades, trovoadas, vendavais, cascos furiosamente postos à prova, velas rasgadas, corpos jogados ao chão. Que há mais marés que marinheiros, dizem-me. Que da tormenta se faz calma. Rendo-me ao porão e atiro-me para o meio de caixotes de madeira putrefacta que por lá deslizam, rendidos que estão ao capricho da maré alta e revolta que agita este barco, sem rei nem roque, nem capitão que o leve a bom porto. As falhas rasgam-me a pele, cortam-me os pés, devoram-me o corpo e revolvem-me por dentro o que não consigo curar por fora. Desfeita de madeira, recolho os destroços de mim mesma e lanço-os borda fora. Que hão-de dar à costa numa praia qualquer onde tu vais estar, para que os recolhas e os engulas um a um, garganta abaixo, e que neles a faringe e a laringe se te cortem e te sangrem e saibas por fim que a mar salgado não sabe o amor que não se dá, mas tão só e apenas a sangue.
terça-feira, 24 de setembro de 2013
Dias há em que desapareces. Dias que encho de areia e de mar, de neblinas e de espuma, e como que encandeada do sol, não te desvendo mais nas esquinas nem nos cafés nem no meio da multidão. Outros de tal ordem são, que repetidamente levo os olhos na mesma direcção, forçando-me num acto de masoquismo a assumir que não és tu que estás lá, nem uma sombra de ti, nem sequer alguém parecido contigo. São meras reminiscência que a minha memória vai insistindo em projectar aqui e ali, maldosamente lembrando-me que ainda vives dentro de mim.
Até quando, pergunto-me.
quarta-feira, 14 de agosto de 2013
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| photo @ Clickt 2013 | www.clickt.com.pt |
A música já tocava cá dentro ainda antes de me reconhecer
como gente. A minha mãe contava-me a história de como só descobriu estar
grávida num concerto, em que aparentemente terei começado a pontapeá-la, como
que reclamando um espaço cá fora onde também eu pudesse sentir a actuação que
estava a perder escondida dentro da sua barriga. O violino acompanhava-me para
todo o lado praticamente desde os primeiros passos titubeantes, e quando
comecei a deslindar-lhe todas as manhas, todos os segredos, nunca mais o larguei.
Em cada acorde, descobria mais sobre mim e sobre o que tenho dentro. E quando
se envereda numa descoberta desta dimensão, dificilmente se consegue voltar
atrás. A profundidade de nós próprios tem mais que se lhe diga do que julgo que
a maioria de nós terá capacidade de compreender. Quando se vive atormentado com
perguntas para as quais nem sempre há resposta, o mundo assume uma complexidade
que ora seduz, ora repulsa, consoante as perguntas fiquem ou não por responder.
Nessas alturas, penso que gostava de me questionar menos, de ser menos
exigente, menos curiosa, menos sedenta de vida. Aqui, vem-me sempre à memória o
de poeta e louco, todos temos um pouco.
A poder escolher, tomara eu ser menos poeta e mais louca, alheia aos pontos de
interrogação que me pairam sobre a cabeça. Não havendo remédio que trate destas
maleitas, agarrada ao violino continuo a demanda, na esperança de um dia ter
mais respostas, e menos perguntas.
segunda-feira, 12 de agosto de 2013
Os nómadas da praia
Dias que viram noites que viram dias que viram noites.
A linha entre uns e outros é ténue, quando não calha a ser
nula. E se não sei onde uns começam, menos ainda sei onde os outros acabam. A
horda de seguidores, sôfregos e extravagantes, dá corpo a um séquito de cores,
sal, areia e sol, qual corte andrajosa, unida no propósito comum de não deixar
por mãos alheias um segundo só deste estio que se lhes oferece em tom provocatório.
Despidos os clichés, veste-se o corpo de música, de fumo, de vinho ou desse
orvalho nocturno de que também se faz um verão. Aquecido o espírito, pés
descalços ao caminho e acende-se o rastilho à entrega. Porque a música fala
mais alto, remisturando molécula a molécula a matéria para a enlevar em acordes
profanos que sem pudor se entranham na pele, no sangue, no suor, nos odores.
Deitados no chão, pregamos todos os olhos no céu à espera da
chuva de estrelas que se promete para hoje. Como se de chuvas e de estrelas
todos nós precisássemos, almejo colectivo de novidade, de cósmico, de espaço e
de fantasias.
Verga-se o corpo ao castigo, para logo a seguir o ver
empurrado para parte incerta, para uma dimensão onde os dias viram noites que
viram dias que logo de seguida viram noites. Nos pés, sempre uma areia que teima
em não largar, no corpo um sal que sazonalmente se agarra e que só abala quando
estiverem para cair as primeiras folhas do outono.
Porque até lá, somos os
nómadas da praia. De areia e sal nos fazemos, sem ponto de partida nem ponto de
chegada, entregues que estamos ao capricho dos elementos.
domingo, 11 de agosto de 2013
Enquanto descia entorpecida(s) as escadas do teu prédio obscuro, não pude evitar uma viagem ao imaginário da minha infância, onde sonhava com prédios de escadas tímidas de madeira, corrimões enferrujados pelo bafejo do tempo, fachadas decrépitas, sapateiros enrugados de portas abertas no rés-do-chão. Saindo porta fora, abre-se-nos um dos bairros mais apelativos de Lisboa, esse capricho chamado Príncipe Real. Enquanto procurava não derreter no caminho até ao carro com os quase quarenta graus que se faziam sentir, uma panóplia de galerias de arte, lojas de rua centenárias, ateliers repletos de trajes apetecíveis, e velhos e novos rua acima, rua abaixo, uns deliciados, outros indiferentes.
Lisboa tem este poder de se me entranhar debaixo da pele, e dias há em que parece que a vejo pela primeira vez, de amor renovado e incondicional entrega. No caminho para casa, pergunto-me se alguma vez terei a coragem necessária de deixar esta cidade que me remexe tanto por dentro. Evito pensar nisso para já visto não ser necessário, e uma colina após a outra, chego a casa de sorriso nos lábios, mais apaixonada que nunca.
quinta-feira, 8 de agosto de 2013
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| photo @ Ricardo Brito 2008 |
Na noite em que te alongas, não há lugar ao espectro da minha ausência.
Na noite em que me alongo, da tua ausência se cosem horas, minutos, segundos.
A sombra a que te devias ter remetido sem delongas porfia em estender-se a realidades onde já não tem lugar, indiferente às investidas que promovo em sentido contrário. Suspiro. Mais um dia desta realidade temporária chega ao fim. Porque tudo passa, e nada é para sempre.
segunda-feira, 5 de agosto de 2013
Love is everywhere, they say
| photo @ Cláudia Rocha 2013 |
que o amor está em todas as coisas, basta olhar. Dele bebo em cheiros, dele me encho em falésias, em todo o lado o encontro menos à flor da tua pele. Numa casa caiada de branco, numa velha porta de madeira em riste de azul, num telhado descascado onde me deito e me entrego ao céu. Estendo os braços num abraço etéreo, demorado e monocórdico. Aqui não chegam os sons das baterias nem dos órgãos, nem os pés das bailarinas a baterem no chão, nem os sinos e os cães e a banda e os foguetes pela manhã, quando o corpo ainda mal se abandonou da música, para agora se entregar à cama. O corpo embebido de lama, a alma despojada de contornos, só uns braços esticados à procura de amor.
esse amor que está em todas as coisas, basta olhar.
quinta-feira, 1 de agosto de 2013
12 Janeiro 2008 - 15 Abril 2013
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| photo @ Ricardo Brito 2013 |
Teoricamente, só há uma possibilidade perfeita de felicidade: acreditar no indestrutível em si sem a ele aspirar.
O indestrutível é um; cada indivíduo o é ao mesmo tempo que é comum a todos, daí esse laço indissolúvel entre os homens, que é sem exemplo.
Franz Kafka, Meditações
Uma das ínfimas vantagens que se pode retirar de levar muita pancada ao longo da vida, é que se chega a um ponto em que já são poucas as coisas que nos fazem cair do cavalo. Seja numa tentativa de preservar a sanidade mental, ou porque de uma maneira ou de outra se aprende a viver melhor a dor, a desconstrução da tragédia e a sua relativização passam a ser uma maneira de estar da qual depende a sobrevivência no geral. No meio de tantas negligência, de tanto esquecimento, de tantas expectativas frustradas, de tanto amor não recebido, é uma missão quase impossível não resvalar para o abismo, baixar a cabeça e aceitar a derrota, colocarmo-nos a nós próprios no centro da culpa e vandalizar a réstia de auto-estima que daí possa sobrar.
Mas comigo não foi assim. Resiliente, fui à luta de todas as vezes, combati todas as batalhas e saí de quase todas de cabeça erguida. Com sequelas, é certo. Mas inteira, determinada, combativa. Foi assim quando tive idade para perceber que tinha um pai que não me queria, foi assim quando a minha casa deixou de ser um porto seguro, foi assim das vezes que a mãe nos deixou, foi assim quando perdi os avós, e foi assim quando perdi o amor de uma vida.
Sacudida a poeira, revoltas as entranhas, e sinto-me mais forte e invencível do que nunca. Olho ao espelho e fico orgulhosa do que tenho à frente. No abraço em que me estendo, compreendo que o que está por vir nunca poderá ser pior do que o que já foi. Não, no que depender de mim. E levantando a cabeça uma vez mais, sigo destemida à procura do que me está reservado. Porque apesar de todo o potencial de auto-destruição que me foi dado em herança, consigo mais do que nunca gostar de mim e da pessoa em que me tornei.
E não há nada que pague isso.
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