quarta-feira, 15 de outubro de 2014



“Só há um recanto no universo que estamos certos de poder melhorar, o nosso próprio eu”. 
Aldous Huxley

No meio da música frenética e da pista onde somos inevitavelmente acotoveladas, ela abraçava-me com força enquanto me dizia tu tens tanto. DIZ?, gritei eu confusa, ao que ela repetiu tu tens tanto. E abraçadas ficámos enquanto deixámos a música - cujo amor partilhamos com a mesma intensidade – embalar-nos por mais uns minutos, por mais uma noite, por mais um verão.

Já não estava habituada a ouvir frases deste calibre emocional.

Sempre me dei melhor com o preto das palavras no branco do papel, que com a timbre da minha voz a ressoar naqueles que amo. Escrever é mais fácil, tira-me a sensação de ridículo com que sempre fico quando tenho que dizer a alguém

gosto mesmo de ti.
amo-te mesmo muito.
quero-te mesmo muito. SÓ. PARA. MIM.

Se tenho muito ou não, isso já não sei, não sei senão que penso muito. Muito mesmo, demasiadamente, ao ponto de me doer o tanto que penso as coisas, os sentimentos, o tempo, as dificuldades, as alegrias, a vida em geral, em tudo o que tem de bom e de mau. Lembro-me a esse propósito de um amigo com quem trabalhei em tempos, amigo esse que manifestava sempre a uma determinada hora do dia uma tremenda satisfação, porque o sol ao entrar pela janela lhe batia nos pés, aquecendo-os. Embora compreendesse a dimensão desse regozijo como uma coisa tão normal, de alguma maneira invejava-o ao de leve, por não ser eu própria o tipo de pessoa que se satisfaz com uns minutos de “sol a bater nos pés”. Quando a resignação deixa de constar no nosso dicionário pessoal para dar lugar à obstinação, há uma inevitável tentativa de multiplicação desses momentos em que o “sol nos bate nos pés”. Uma busca que chega a ser cansativa por esses tais momentos em que sentimos que temos tanto. E afinal, todos nós temos tanto. 

É só parar para escutar.

(TU também tens tanto, Verinha querida)*








terça-feira, 14 de outubro de 2014



Toda a vida da alma humana é um movimento na penumbra. Vivemos, num lusco-fusco de consciência, nunca certos com o que somos ou com o que nos supomos ser. Nos melhores de nós vive a vaidade de qualquer coisa, e há um erro cujo ângulo não sabemos. Somos qualquer coisa que se passa no intervalo de um espectáculo; por vezes, por certas portas, entrevemos o que talvez não seja senão cenário. Todo o mundo é confuso, como vozes na noite.
Livro do Desassossego por Bernardo Soares

Deus não se apieda de quem muito ama, de quem ama mais do que pode, de quem dentro tem tanto amor que sente as veias implodirem de não conterem tamanha violência de sentimentos. Pois que toda a vida te tenho vindo a chorar, e que todas as horas te tenho vindo a sofrer, e por todo o tempo te tenho vindo a cantar, e com todas as palavras te tenho vindo a (d)escrever. E em te achando te perco outra vez, para a mim me achar outra vez embriaga do amor que tenho para te dar. Todo, imenso, gota por gota, beijo por beijo, toque por toque. Repito-te, repito-me, vezes sem conta, as vezes que forem precisas para antes desta vida e depois da próxima, me voltares a encontrar, homem ou mulher, e me voltares a deixar amar-te. Triste fado, o dos que amam de mais e de quem Deus não se apieda. Que um coração partido é bom, é sinal de se ter tentado. Eu nunca tentei. Amei apenas, e de apenas amar desamada fiquei, enrodilhada nos meandros vis do sentir, do querer, do olhar sem pestanejar e sem querer um ar que encha os pulmões. Porque no amar não se respira, o corpo tolhe-se das necessidades vitais para se entregar à primeira, última e única necessidade vital, e sem a qual ele não se sustentaria de pé - a de amar. E amando tola, vou-te continuar a amar, e a chorar-te, e a sofrer-te, a cantar-te e a (d)escrever-te, as vezes que forem precisas para que ainda antes desta vida e depois da próxima, me voltes a deixar encontra-te.

terça-feira, 26 de agosto de 2014

A religião que pratiquei escrevia-se com as letras do teu nome. Tua amiga e tua amante, agora e para sempre, Ámen. Une-nos um horizonte comum, um passado e um futuro, sem nunca nos chegarmos de verdade a encontrar no presente, no aqui e no agora. E agora que te vejo, cruamente transparente, de ti me despeço em oficiosa cerimónia, cinzas ao alto e um munto de infinito por abraçar. De ti me aparto e me apago, escrava velha das velhas orações que elevam e que te louvam, refém intrépida de te saber parte indelével de mim. Tu sabe-lo, eu também o sei, e assim me despeço e me faço ao caminho

Adeus e até amanhã e até ontem, mas nunca até hoje.


segunda-feira, 28 de julho de 2014

conselho



O amor é isso mesmo, meu caro Kafka. Tu é que andas nas nuvens e experimentas todos esses sentimentos maravilhosos, do mesmo modo que só tu é que desces ao abismo mais profundo da angústia. E o teu corpo e a tua alma têm de suportar. Estás entregue a ti próprio.
Haruki Murakami in Kafka à Beira Mar

São ainda poucos e dormentes os minutos que passam das sete na Figueira. Uma ou outra carrinha abastecem o mercado, enquanto pombos e gaivotas disputam lugares privilegiados no terraço do Hotel Mundial. Um homem de idade avançada senta-se na paragem vestido de colete fluorescente, impregnando o ar do álcool que acabou de beber, tal é a intensidade do cheiro que oferece a quem por ali espera que algum autocarro se digne a passar. As nuvens cinzam o dia de um exacerbado dramatismo, quando não passa de uma qualquer sexta-feira onde provavelmente nada de extraordinário vai acontecer na vida das pessoas que por ali se amontoam. No painel amarelo coçado lê-se que mais dez longos minutos separam os passageiros da chegada do malfadado transporte, pois que é o tempo que falta para que algum autocarro se digne a passar.

A senhora dos seus setenta anos sentada a meu lado tem um doce cheiro a sabonete que me faz lembrar da minha avó – provavelmente também usa Feno, como a minha avó usava. Imbuída de uma bizarra nostalgia trazida pelo cheiro daquela senhora, sem dar por ela há uma lágrima que em carregando uma imensa saudade de outros tempos, aterra feroz na blusa de algodão que trago nesse dia. Não me apercebi dessa súbita melancolia, tampouco que chorara, até que sinto uma mão firme segurar-me o braço, enquanto me dizia num tom doce

Não chore menina, que não vale a pena. Eu chorei muito, sabe. Mais do que se pensa que um corpo frágil como o meu poderia aguentar. Mas chorei, aguentei, e aqui continuo. E sabe o que retiro daí?

Não, disse-lhe eu, ainda surpreendida com tão vespertina e inesperada abordagem.   

Que andamos cá tempo demais para aquilo que sofremos. Esta vida tem mais coisas más que boas, e se às más as choramos todas, já as boas nem sempre valorizamos nem lhes damos o devido apreço. Cedo aprendi que uma vida feliz e sem percalços é privilégio de uma minoria, onde infelizmente não me tocou caber. Por isso lhe digo menina, não chore que não vale a pena. Eu do tanto que chorei, pouco me aliviou, de nada me serviu tanta lágrima, tanta dor, tanta miséria e tanto comer do pão que o diabo amassou. Acabei sozinha, mas ao menos não acabei triste. E sabe porquê? Porque deixei de me permitir sentir. A tristeza era tanta, que escolhi deixar de lhe dar lugar. Hoje palpo a solidão que me rodeia como se de algo físico se tratasse, tal é o tamanho do monstro. Mas ao menos não choro mais. Vá por mim, menina, não chore que não vale a pena.

e sem me deixar tempo de processar, agradecer ou sequer comentar o que acabara de me transmitir, rematou logo muito despachada, em total contradição com o tom das suas palavras

Olhe, e já lá vem o autocarro. Sacana, sempre atrasado.

quarta-feira, 25 de junho de 2014


I drink much more than I ought to drink
Because it brings me back you...


Hoje quando me cruzei comigo no espelho, por pouco não me reconhecia. Olhei com mais atenção e vi o que me pareceu claramente ser uma mulher de quase trinta anos, roupas claras, pele morena, cabelo desalinhado mas arranjado para trás como que clamando respeito. E em olhando mais dentro, vejo de relance todas as pessoas que afastei de mim sem pensar duas vezes. Um após o outro, despedi-me de todos eles sem dó nem piedade. Uns sofreram mais do que outros, outros sobreviveram mais indiferentes, mas a todos acabei por abandonar, presa à vincada certeza que nenhum deles era o tal. E escrevi-lhe tantas cartas, e chorei-lhe tantas lágrimas, e o vinho que bebi enquanto esperei e cogitei, e os cigarros que engoli sentada esperando tão desejada aparição. 

Oh, evidências. A evidência terrível de um destino que nunca se me afiguraria favorável, mas ainda assim tão tentador. A vontade incontrolável e selvagem de mergulhar num pernicioso mundo de onde não poderia senão sair o escombro do que um dia fui. E assim foi brusca, impensada e dolorosa a força com que embati o corpo contra o teu, e lentamente o vi destruir-se tal foi a violência do impacto. E ainda assim, tudo o que mais queria era apertar-te até me confundir contigo e nunca mais te perder nem ver noutro lado que não fosse dentro de mim. Para sempre.

Hoje brindo à tua sagacidade, pois rapidamente percebeste a incompatibilidade permanente que nos uniu para depois nos apartar. Brindo a tua coragem, pois logo pequena me encolho ante o peso com que me esmagas em cada relance que me deites, em cada ar que ouses partilhar comigo, em cada linha de mar que é minha e tua quando as areias voltam a ser nossas. 

quarta-feira, 11 de junho de 2014

 
 
Parabéns, mano querido.
 
Ontem completaste um quarto de século, e espantada olho para ti e nem me acredito, essa tua cabecinha loura de corte à tijela cresceu e fizeste-te um homem, bem debaixo dos meus olhos. O dia em que nasceste é provavelmente a memória mais antiga que carrego comigo. Mais antiga que o primeiro dia em que escrevi o meu nome sozinha pela primeira vez, e que eu jurava a pés juntos ser a mais antiga das minhas memórias. Mas não, tu vives cá dentro há mais tempo do que as letras e a vontade de as pôr juntinhas umas à outras. Não que me lembre de ti propriamente, nem te ver deitado no teu berço. Lembro-me de ti e do dia em que nasceste, porque quando te visitei já havia bolo de aniversário. Com os quatro anos que tinha, achei normal teres bolo assim acabado de nascer. Mas afinal o bolo não era teu, e sim da mãe, que fazia anos hoje, logo um dia depois de ti.
 
Parabéns mãe, temos saudades tuas. Ele não me diz, mas eu sei que não sou só eu.
 
Isto de seres a minha primeira memória tem que se lhe diga. A minha vida seria tão mais incompleta se não te tivesse por perto, se não me irritasses tanto às vezes, e se não me fizesses rir outras tantas. A verdade é que te amo o tanto que uma irmã pode amar um irmão, quando esse irmão é amigo, é parceiro, é a família mais chegada que nos resta. Esse irmão és tu, e pese embora a maior parte dos dias me apeteça gritar-te aos ouvidos todas as coisas boas que as manas mais velhas querem ensinar aos manos mais novos, nos outros dias todos gosto de ti e sinto-me uma privilegiada por te poder ter por perto, e por sermos irmãos e amigos. De seres a minha mais antiga lembrança, é daí que deve vir esta minha insaciável necessidade de te ver bem, de te saber bem, de te querer bem. E olha que os amores vêm e vão, a vida já no-lo ensinou bem. Mas este amor de irmãos, é daqueles que nem tempo nem distância apagam. É para sempre.
 
Por isso mãe, e apesar de hoje ser o teu dia, ontem foi o dia dele. E o mano cresceu, e sei que ias chorar de orgulho se o pudesses ver. Hoje sou só eu que tenho esse privilégio, e por isso desculpa se hoje te dedico apenas uma ou duas frases, mas não quero chorar a tua ausência, e sim festejar a presença dele.
 
Os dois de parabéns, os dois a encherem-me o coração, de amor, de saudades, de remota memória do que um dia foi a sombra de uma família (quase) normal.

domingo, 8 de junho de 2014

coincidências





Dos prazeres matinais. Uma casa com jardim, que se prestava aos deleites ainda mal descolados dos sonos. A mão procurava as arestas familiares do corpo do outro, a melancolia campestre ditando a cadência aos movimentos, recostava-se a cabeça no peito que ali jazia e o mundo dir-se-ia não acabar mais. Presas à preguiça, entrelaçavam-se lentas as pernas e outro suspiro leve, quase inaudível, parecia sempre espraiar-se além das janelas brancas que se abriam para o jardim. Ela enrolava-se nele e apertava-o ainda mais, que o amor nunca se há-de acabar, as manhãs são palavra viva na intensidade que com ela o aconchega e o aninha e lhe diz que o quer tanto, que ele nunca se há-de ir embora porque o amor nunca se há-de acabar. Que as janelas nunca se hão-de fechar e que o suspiro há-de ir e voltar, porque o amor nunca se há-de acabar. Mas o amor? O amor quase sempre se apaga e se acaba, as janelas brancas deixam-se fechar e o jardim sente-se murchar vergado de mágoas e de despedidas que nunca chegam a acabar. O amor é um eterno adeus, um fica-me para sempre antes de te ires de vez. 

sexta-feira, 23 de maio de 2014


“Magoadinhos da piça, é o que eles são todos”.
Quem mo disse pela primeira vez foi uma das meninas de Aveiro. Qual delas já não sei, que os anos passados entre nós já são dez e às vezes já confundo quem me diz uma coisa, quem me diz outra. Quiproquós à parte, o que sei é que a partir desse dia a psicologia masculina deixou de me parecer tão complicada quanto a julgava. Não que o sexo oposto me instigue confusão e intriga suficientes que passe horas a pensar nisso.
Mas os magoadinhos da piça são um caso à parte.
Nós, mulheres, temos os hábitos do costume, e que não são novidade nenhuma para ninguém. Ele é cortar o cabelo, é renovar o guarda-roupa, é ocupar o tempo com as amigas, normalmente a desdizer o sexo oposto. Isto, claro está, quando não somos também nós umas verdadeiras magoadinhas - mas com essas já eu não me coaduno -  e nos fechamos no quarto a comer baldes de gelado e a ver as piores comédias românticas que o Wareztuga tem para oferecer. Isso, e ver os pêlos crescer, porque já não temos com quem partilhar a nossa pele lisa e linda. E a coisa geralmente resume-se a isto, ou nos safamos com o tal corte de cabelo novo, recompondo-nos à força da tesourada, ou engordamos um ou dois quilos à conta da maldita caixa da Haagen-Dazs De uma maneira ou de outra, lá fazemos o luto antes de apanharmos o próximo táxi.
Mas o magoadinho da piça é aquele gajo a quem o corte de cabelo novo nada faz, e que nem uma caixa de gelado e todos os piores filmes do mundo juntos podem salvar. O magoadinho da piça é aquele gajo que salta de relação em relação, e ainda o corpo da ex-namorada não arrefeceu, já ele está de armas e bagagens – que é como quem diz, com todos os seus dilemas e frustrações de magoadinho – pronto para chorar no colo da namorada nova (ou será a vítima nova?). O magoadinho da piça é aquele gajo que já não quer estar contigo, mas que contraditoriamente não se inibe de querer saber de ti - de preferência se continuas a sofrer por ele. O magoadinho da piça é aquele gajo que até pode nem te querer mal nenhum deste mundo, mas opta por não te falar, porque é mais fácil não ter que te dirigir a palavra do que ver o passado escarrapachado na tua cara. Ou vá, não vale a pena tapar o sol com a peneira, às vezes só não te fala porque és mesmo uma grande cabra. 
Feitas as contas, o magoadinho da piça é uma epidemia, uma praga, uma ameaça. Não tenho nenhuma amiga que não conte com pelo menos um na caderneta de cromos. Acho mesmo que nesta vida ninguém se livra desse mal. Dois, só se fores muito parva, porque quem aguenta um primeiro, já não quer experimentar um segundo. Às tantas, o magoadinho até pode ser encarado como uma mal necessário, uma espécie de varicela que quando tida na infância, nos previne de males maiores na vida adulta. Quem tem um magoadinho no passado, fica a saber exactamente do que é que NÃO precisa no futuro. E vistas assim as coisas, vivam os magoadinhos da piça!
Mas mais não, obrigada.

quarta-feira, 21 de maio de 2014

"Na bruma leve das paixões que vêm de dentro
Tu vens chegando para brincar no meu quintal..."




Ele foi andando e eu nem dei por isso. 

A abruptidade com me deparei sozinha não podia ter sido mais contrastante com a subtileza com que reparei que já não havia esqueletos dele no meu armário. O ar tão mais limpo, as ideias tão mais certeiras, o corpo tão mais descontraído. Clara como água a vontade de viver mais e mais, mesmo sabendo que não só das alegrias se faz o caminho, mas de coisas menos boas também. 

Há uns bons meses atrás já tinha dado pela partida, quando agarrada ao volante cantei aos berros uma música qualquer que me chegava da rádio. E desde que cantei essa música, um sambinha bom vem embalando o meu coração, enchendo-o mais de mim e cada vez menos do supérfluo que esteve a mais, por tempo de mais. Agora, só o sambinha me percorre. E tão, mas tão bom que é esse acorde doce que me lembra que ainda vou ser mais e mais feliz. 

Oh, sambinha bom...

terça-feira, 13 de maio de 2014


"Leaving is not enough; you must stay gone."
Frida Kahlo para Marty McConnell


Diz-me que não

Não consigo

Diz-me já, com todas as letras, JÁ-NÃO-QUE-RO-ES-TAR-MAIS-CON-TI-GO

Não posso, não consigo, não sei

É no mínimo insensato esperares que eu o faça, se tu próprio és a vítima primeira de uma afasia ridícula que não to permite verbalizar, tampouco concretizar em gestos que não contrariem tudo o que dizes.

Apertaste o corpo contra o meu com violência, não permitindo um milímetro de espaço entre nós.

Sufocaste de beijos sôfregos a minha boca, mal conseguia já respirar.

Velaste-me em cuidados mil, levada ao colo num abraço de uma noite maior que a vida.

Apertaste-me o queixo entre os teus pequenos dedos e repetiste-me à exaustão

Olha para mim

Olha para mim

Olha para mim

Subserviente, olho para ti há tempo demais. Olho para ti desde que a tua presença me desinquietou no meio do alvoroço feliz em que me encontraste um dia, olho para ti desde que o teu carinho me resgatou à mais longa e escura noite em que já dormi, olho para ti desde que o teu desassossego me contagiou irremediavelmente e nunca mais a letargia fez parte do meu vocabulário.

Olho-te, mas não consigo mais prender-me ao fundo dos teus olhos. Porque quando o faço, sempre encontro um trejeito que contraria cada palavra que proferes. E por mais que me apeteça lá ficar, sou obrigada a olhar noutra direcção, para não ver mais verdades nos teus olhos que mentiras na tua boca.

Valesse mais um olhar que se oferece que o som de uma palavra.



segunda-feira, 5 de maio de 2014

Da serena(idade)



Encho os pulmões de ar, o comprimido já fez efeito e já consigo respirar sem dor. As dores nas costas não me largam, malvadas. Seja a idade, o stress ou a ansiedade, o que é certo é que já não passo sem yoga, massagens periódicas, comprimidos em S.O.S. e uma ou outra sessão de fisioterapia. E não, não tenho sessenta anos, ainda não vou a meio dos vinte e nove e já me pesam os balanços que antevêem os trinta. Os balanços, e as dores nas costas, malvadas. Num cenário optimista (ou será pessimista?...), um terço da minha vida já lá vai, o que já me confere alguma autoridade para tais balanços, olhar para trás e para frente, apontar baterias para os sítios “certos”. Ainda não casei, nem sei se alguma vez o farei, e o pesado baú de madeira que mantenho desde a infância já pouco enxoval guarda, um pano ou outro de cozinha que tenha sobrevivido às minhas investidas, e aqueles lençóis fora de época que nunca hão-de servir para nada. De resto, pouco me sobra das incumbências provincianas com que fui educada, se é que se pode chamar educação àquilo que me foi (ou não) transmitido enquanto crescia numa aldeia onde as mentalidades continuam impermeáveis e as línguas se preservam afiadas.

Duas longas relações findas porque pura e simplesmente não tinham que ser, outras tantas amizades purgadas pelo tempo, e descubro agora os prazeres da individualidade mas também de me rodear exclusivamente de pessoas que me querem bem, que me fazem bem, que me fazem mais feliz. E enquanto cresci e cresço, demorei a percebê-lo, mas entendi finalmente que o processo de amadurecimento não é mais senão a constante aprendizagem da moderação das expectativas. Uma vez moderadas, tudo se torna tão mais simples. Com seis anos, sonhava ser astronauta e explorar o espaço, mesmo com as constantes ameaças do meu avô em me deserdar se eu não me tornasse enfermeira de guerra. Nunca cheguei a perceber em que guerra me queria ele, daquela altura recordo os conflitos na Bósnia e a guerra no Golfo, e não percebia para qual delas iria eu nem que propósito teria isso para o meu avô. O certo é que não virei enfermeira de guerra, muito menos astronauta, e acabei na mesma sem herança que se pudesse ver. Lembro-me mais tarde de ver escrito nas portas dos bancos que encerravam às 15h. Achei maravilhoso e convenci-me de que um dia ia querer trabalhar num banco e sair às 15h para ir para a praia. Claro que à época ignorava o tom premonitório de tal ambição, e também o quão errada estava em achar que ia ter um trabalho onde saía às 15h. Mas isso já são outras histórias. Volvidos outros tantos anos, apaixonei-me pelos direitos humanos, pela diplomacia e pelas relações internacionais, e convenci-me de que podia salvar o mundo, trabalhar com refugiados, levar água a aldeias remotas em África, fazer chegar alimentos a crianças famintas, promover discussões acesas em fóruns onde estes temas fossem a ordem do dia. Mais uma vez, a vida condicionou-me totalmente as expectativas que por tanto tempo alimentei. A morte precoce da minha mãe fez de mim e do meu irmão as crianças famintas e sedentas de uma mão que nos salvasse. Mas não, não houve mão que nos salvasse, nem milagre que nos retirasse de um cenário muito provavelmente drástico, não fosse uma vincada resiliência e teimosa vontade de vingar. As mãos que nos salvaram acabaram por ser mesmo as nossas, ao cabo de muitas horas de trabalho precário, mal remunerado, sem benefícios, e dois anos inteiros sem saber o que significavam férias, viagens, lazer. O alimento era a prioridade, tudo o mais era supérfluo. Deste período, poucas relações sobraram. Arriscaria mesmo dizer que os dedos de uma mão são suficientes para contabilizar os amigos que se mantiveram, não obstante a turbulência a que me vi exposta. Ninguém tem paciência para lidar com uma pessoa em luto atribulado, coroada por uma pseudo maternidade assumida em relação ao meu igualmente órfão irmão, e uma total incapacidade financeira de participar em actividades sociais. Não era de facto a amiga mais óbvia, nem a primeira pessoa a quem se lembravam de ligar, invariável que era o meu “não” aos convites recebidos, constante que era o meu desespero pelo futuro ainda por vir, pelas contas por pagar, pela comida que o estômago nunca deixava esquecer. Ainda noutro dia partilhava com um amigo a história - hoje quase engraçada, mas à data sem piada alguma – do dia em que passei fome. Sim, dia no singular, porque foi mesmo só um dia. Um final do mês dramático em que os parcos salários chegaram para as responsabilidades mais imediatas, mas não para aprovisionar dispensa nem frigorífico. Prometi a mim mesma que aquele seria o primeiro, único e último dia em que passaria por uma situação tão limite quanto a de querer comer e não ter poder de compra para o fazer. Mas isso já são lides para outras conversas. E onde é que eu ia mesmo…? Ah, sim, nada como uma boa tragédia de faca e alguidar para ver quem são os amigos dignos desse epíteto, e quem são os que se limitam a figurantes. Assistem sentados e aplaudem, mas não participam. E de figurantes acabam por não passar.


Moral da história? Moderar expectativas é primordial, seja em relação aos amigos que vamos tendo, seja nos romances que vamos alimentando e que invariavelmente falham, seja no trabalho que fazemos, sabido está que estamos longe de salvar o mundo. Contextualizar o que nos acontecesse, agradecer o bom e saber lidar com o mau. Sem esta moderação, seremos incapazes de discernir os momentos que definem a nossa vida, e a sensação pulsante e viva de sermos ou não felizes. E ninguém quer ver turvos esses momentos, aqueles que superam todas as expectativas, das mais humildes às mais arrojadas. É que é nessas alturas, em que a luz é mais clara, os sons mais nítidos, os odores mais apurados, que a felicidade se insurge. E ninguém a quer deixar passar despercebida… pois não?

sábado, 26 de abril de 2014



Um coração nas mãos erradas é 
Uma alma cheia de nada, 
A morte da gargalhada 
Relento e noite gelada. 

É como a rosa coberta em geada, 
Uma imagem linda com uma história trágica, 
Pinta um retrato e guarda, 
Já sabemos como a história acaba. 

E em dias de menos glória, 
Repetidos, como as histórias, 
Os punhos estão cerrados. 

Todos os contos são vãos 
Ainda com o meu coração nas mãos 
Dedicas-me um aplauso. 

Aplauso, António Galvão


Quando arrisco olhar-me para o corpo, encontro apenas os vincos da roupa que nunca chego a despir. Desfio incontáveis os minutos que durmo em te esquecendo, e em te esquecendo encontro arestas, pontos arenosos, trilhos recortados na pele que oxigeno por fim. O caminho de ti até mim fez-se atribulado, e a chegada não traz muitas mais respostas, senão tantas outras questões que ficam para serem respondidas noutros tempos, noutras pessoas, noutras memórias. Do vazio já muito pouco sei. Revezo-me a mim mesma nas noites veladas onde só eu, assim sozinha, me acompanho me embalo me amo. Ao coração que despedaçado jazia, guardo respeito, inteira admiração, prostrada vénia como quem diz adeus, não mais voltes, não mais me quebres para nunca mais me reconstruires. De agulha e linha tanto me cozi, que a agulha quase quebrada pouco ajuda a linha que ameaça chegar ao fim. Do tecido novo que se fez cicatriz faz-se também pele nova, a pele que há-de suster os outros baques e todas as batalhas por travar. 

segunda-feira, 24 de março de 2014

es(tática)



O silêncio que veio ocupar o teu lugar tem a capacidade por vezes de ser violentamente ensurdecedor, vetando a sequer remota possibilidade de produzir pensamentos dignos desse nome, tal é o espaço vazio que força dentro de mim.

Podias ser uma cidade turbulenta, frenética, pintada, desorganizada, sufocante, arrebatadora, barulhenta.

Como podias ser floresta, confusa, indefinida, selvagem, fresca, impenetrável, caótica, barulhenta.


Mas não, escolheste ser silêncio, e a privação do som pesa mais que a cacofonia que ninguém entende. O silêncio também não se entende, especialmente quando faz doer. 

sexta-feira, 21 de março de 2014

sentidos



A evolução requer que se reúna o batalhão dos sentidos. A construção de novas memórias olfactivas, o desconstruir dos pontos de vista, a reorganização interna dos sons, a procura de paladares desconhecidos, a sensibilidade à flor da pele estimulada por novas sensações. Não é fácil arrancar o rosto mais familiar de todos da cidade que nos é também a mais querida. Menos fácil ainda é arrancá-lo à linha de horizonte que desenha o mar, porque o mar é igual onde quer vá, é arrancá-lo às nuvens que se desenham no céu, porque invariavelmente o céu e as nuvens são iguais de onde quer que os veja, é arrancá-lo a todos os sítios onde insiste em sobreviver estampado, vívido, incómodo. Embora não deixe de ser um rosto difuso e cada vez mais esbatido pelas falhas da memória, é essa mesma memória que traiçoeira mantem vivas as ausências que mais doem, renovando-as onde já não fazem falta nem são desejadas, mas mantendo-as vivas. Continuo à procura de sítios onde não substituam moléculas nem poeira cósmica deixadas pela tua passagem. São poucos, alguns já os conheço e outros hei-de descobri-los. Até os ter todos para mim, vou contornando um vulto teu que volta e meia se me assoma, para me lembrar das palavras do poema, que o amor é uma doença, quando nele julgamos ver a nossa cura.

quarta-feira, 12 de março de 2014

Carnaval dois-mil-e-catarse ou de como se faz uma foto suruba


E agora, o Brasil.

Viver um Carnaval no Rio de Janeiro foi indubitavelmente das experiências mais exigentes a que o meu corpo já sobreviveu. Empurrados pela cerveja e entorpecidos pelo calor, os membros sucumbem constantemente num bizarro limbo de dor e de prazer, mas nunca, nunca desistem. Mais um bloco, mais uma música, mais uma latinha/piriguete divida com dois, três amigos, um sacolé para refrescar, e segue outro bloco, que "o tempo ruge e a Sapucaí é grande".

Compromisso é coisa que o Carnaval carioca desconhece. As videntes que jogam búzios prometem pelas paredes fora trazer a pessoa amada em três dias. A pessoa amada está a cada esquina, e se a perdermos hoje, amanhã será desapegadamente de outro folião que calhe a aproximar-se-lhe. Já beijou hoje, oiço-os perguntar a uns e a outros, ah, então me beijaPuxa, beijo gostoso o seu. E é de beijos que se alimenta a festa mais desinibida de todas, a carne vale e vale tudo pela carne. Não se pode esperar que um compromisso sobreviva umas fugazes vinte e quatro horas. Uma hora talvez, e com sorte o destino dita o resto.

Beijos e folias à parte - que o meu corpo ainda a reclama - no Brasil fui descobrir amores e poesias raros de encontrar, e tão prazerosos de preservar. Ninguém me avisou que para além de fisicamente desafiante, esta seria uma viagem emocionalmente vertiginosa. E eu que das férias só costumo trazer cansaço acumulado e preguiça de voltar ao trabalho, desta vez trouxe um coração inundado de amor surpresa, de amigos que abraçam e me deixam impotente de felicidade, que me fazem chorar a bandeiras despregadas no aeroporto, desmastreada e perdida de voltar a este frio e a este país que julgava quente e percebo agora ser afinal moderadamente ameno, amenamente caloroso. Sem esperar, dei de caras com um povo delícia, que abraça sem meias medidas, que ama sem preconceitos, que beija como quem come um iogurte. E senti mais do que nunca o “peso” da herança comum que partilhamos, da história que construímos juntos, da bênção que é chamar o Brasil de país irmão. Ilusão da língua comum ou efeito das amizades encontradas, o certo é que nunca me senti tão em casa como neste país quente onde os insectos me devoraram sem tréguas, onde o calor impedia a maquilhagem de se me segurar no rosto, onde a cerveja substituiu a água durante dias a fio, onde a temperatura é tão alta que o mar quase não chega para a ludibriar.

Porque nasci portuguesa. Mas se perguntassem, teria escolhido nascer brasileira.


segunda-feira, 10 de março de 2014

Quem aMa Clara (com um considerável atraso de vários dias)

E lembro-me de ficar pendurada nas fotos dela, tentando adivinhar o que por aí vinha. Quem era essa total desconhecida de imagens com cores intrigantes, ar maduro e olhar pitoresco de menina curiosa. Numa foto aparecia na praia de flor na cabeça, e isso só podia ser um bom sinal, pensei. Tinha fotos de chuvas e de fumos, e tinha fotos de óculos amarelos atrevidos na ponta do nariz. E lembro-me de pesquisar o significado das palavras estranhas que trazia bordadas nas costas. 
Com o tempo percebi que a raridade é o dom de ser de algumas pessoas que pisam o chão deste mundo. E cruzar caminho com esta menina do Piauí é sinónimo de amor sendo deixado de leve e de rajada no vinco da nossa vida, porque quanto se intercepta um espírito assim, o instinto é ficar. O instinto é procurar, é amar, é dar e é querer ser melhor. E podia dizer que a partir de hoje nada muda. Que o oceano que a partir de hoje nos vai separar não vai minar os laços que criámos, que as tecnologias nos vão manter próximas, que não vou sentir a tua falta. Mas estaria a mentir, com quantos dentes tenho na boca.


Porque a partir de hoje tudo muda.
Porque nunca mais vou tomar um banho sem levar atrás o meu telemóvel com a repetitiva playlist que lá tenho dentro, coisa que aprendi contigo (a ouvir música no banho, não a ser repetitiva).
Porque vai ser difícil continuar a confeccionar pratos no forno sem lhes pôr batatas de palha em cima, ou a comer pratos com molhos, sem novamente os adornar com as malfadadas batatas que só engordam, outra das muitas coisas que aprendi contigo.
Porque tornaste o nossa economia familiar partilhada fiel subscritora da revista Vertbaudet, apesar de nenhum de nós ter filhos nem crianças por perto a quem comprar roupas por catálogo – admite, fizeste isto para nos fazer lembrar (ainda mais) de ti cada vez que a revista chegar?
Porque quando fizermos uma limpeza à cozinha, provavelmente vamos encontrar uma das tuas mil listas caída nalgum lado, seja ela uma lista de compras, de afazeres ou de coisas muito importantes de que não te podes esquecer, que tens sempre muitas. Porque agora temos um pinguim chamado Albino que vive por cima do frigorífico e vigia cada passo que damos, e sempre me lembro de ti quando o vejo empertigado no fatinho preto e branco. Porque temos receitas de comidinhas boas escritas em post-its ali ao pé do fogão que ainda ninguém teve coragem de arrancar. Acho que vão lá ficar para sempre. Tal como o amor que me ensinaste a (re)viver. E por isso te devo tanto. 

Por tudo isso e por quanto mais não cabe nas palavras, mas se ilustra nas lágrimas que deixei no Rio embrulhadas num dia de águas de março, e porque se em alguém revejo o amor incondicional e despretensioso, é em ti, Ana Clara.


sábado, 22 de fevereiro de 2014



Uma vez a minha cara apareceu pintada numa parede. Não sei se retrata um anjo uma rainha ou uma mulher para amar para a vida, daquelas que não se quer perder nunca. Depois sei que essa imagem passou a retratar uma mulher calculista, manipuladora, fria, vingativa. Oh, pudesse ao menos ser assim. Mas porra, não sou. Tu melhor que ninguém, devias saber disso. Foda-se, carrego no peito um coração que ferve e sangra sempre, mas sempre. E queria muito ter a força de odiar, mas o ódio não nasceu comigo, foi-me ensinado e queria muito que me ensinasses a ser mais como tu. Assim a julgar sem me preocupar, assim a agir e a me reflectir, assim a pintar a história em vez de a escrever. A pintura compromete menos, a palavra já não se retira, uma vez proferida basta para atingir o outro no meio da cara e deixá-lo assim nu, só, desprotegido e inenarravelmente indefeso. O corpo amiuda-se para mais um baque, para mais um confronto. Vou levar de frente com a dor e deixá-la embrulhar-me num novelo de mais mil outras dores, porque depois vou-me agigantar e sacudir de mim o que estiver a mais. 

Só tu não estás a mais, nunca estiveste. Quanto muito estás de menos. Porque vou ter uma varandinha florida onde te podias aninhar comigo e pensar em nada e em tudo, desenhar as caras um do outro e dos que ainda não conhecemos, tocar-te na mão e lembrar-te do que me fazes sentir e do quanto fazes de mim tão melhor. Tão melhor que agora estás de menos e eu estou uma fracção indecifrável sem solução à vista. Que sou um monstro, que não sou vítima, que mereço tanta responsabilidade nos actos e nas escolhas como qualquer outro. Não me dês as costas, que eu dou-te a mão e levo-te para um sítio dentro de mim que tu não conheces. Um sítio onde habitaste e agora te esqueceste de como era ameno, destinado a ser, o teu e o meu espaço.

Mas só tu não estás a mais, nunca estiveste. E quando finalmente me cortares as amarras, eu deixo-me ir. Mas por enquanto, fica só assim mais um bocadinho. A raiva afinal também é um sentimento, e ninguém disse que de sentimentos só íamos ter os bons.   

terça-feira, 18 de fevereiro de 2014



Ausência

Por muito tempo achei que a ausência é falta.
E lastimava, ignorante, a falta.
Hoje não a lastimo.
Não há falta na ausência.
A ausência é um estar em mim.
E sinto-a, branca, tão pegada, aconchegada nos meus braços,
que rio e danço e invento exclamações alegres,
porque a ausência, essa ausência assimilada,
ninguém a rouba mais de mim.

Carlos Drummond de Andrade

Engraçado como as palavras sempre nos encontram nos momentos certos. E vezes há em que os momentos se querem privados das palavras, em que fingimos que não nos vemos, não nos escutamos, nunca existimos nem sabemos quem fomos ou a sombra do que somos. Como estará hoje o nosso Oeste, teu e meu, pensei hoje de manhã quando acordava. Que podia ser uma segunda-feira antiga em que o despertador me arrancava dos teus lençóis, me roubava ao abrigo dos teus braços, para vil me oferecer ao caminho de volta à cidade. Caos, neblina, o sol que agarra no caminho do campo para a metrópole. Se hoje estivesse o tempo bom e a cidade não me chamasse impiedosa, podíamos ir tirar medidas ao mar, contar-lhe as ondas, sorvê-lo nuns beijos deixados à deriva numa falésia anónima. Pego-te pela mão e mostro-te um stencil, uma mensagem deixada num casal que dizem ser dos Patos. Tão linda, a vossa história, tão parecidos, tão doces. Custa-me ver-vos assim, sabes? Parecem uma ruína daquilo que um dia foram, e nas falésias não há curas nem palavras sábias que adormeçam a dor nem aliviem o mal de que vocês padecem. Há uma varanda para o infinito, de onde abraço o mar e me jogo ao desconhecido e à oportunidade. Respiro, e sou inteira, outra vez, só eu, insana impune indefesa.

quinta-feira, 13 de fevereiro de 2014



Parece que o corpo não realiza nada, o corpo deixa de existir, e por baixo do peignoir de seda há apenas movimento. Um movimento que realiza as formas de um corpo, por baixo do peignoir de seda. E eu me pergunto, quando ela sobe a escada, se não é um corpo assim dissimulado que as mãos têm maior desejo de tocar, não para encontrar a carne, mas sonhando apalpar o próprio movimento.

Chico Buarque in Estorvo

Estou emocionalmente indisponível. Não porque alguém me ocupe o coração, não porque seja uma intrépida feminista, não por falta de opções. Estou emocionalmente indisponível desde que me coloquei no centro exclusivo e primordial das minhas prioridades, desde que me interessei em pensar melhor a complexa personalidade que tanto me aflige e inquieta, em desvirtude de me deleitar nas personalidades de outros, que muito me acrescentam mas invariavelmente me falham num ou noutro momento.

Por gostar mais de mim do que alguma vez imaginei vir a ser possível, e sem pudor algum de o gritar a plenos pulmões sob pena dos mais variados julgamentos, amanhã não vou ter um jantar de solteiras nem um jantar de solteiros nem um jantar de “encalhados” – e usando esta palavra friamente matei o lirismo que nesta crónica restava - nem o que quer que seja que as pessoas que se sentem sós no dia 14 de Fevereiro tendem a fazer para disfarçar ausências, para camuflar uma solidão que em última instância depende tão só e apenas de nós próprios para ser extinta. Não há solidão maior do que a de não nos reconhecermos mérito suficiente para nos fazermos felizes sem dependermos da outra metade da laranja. E sem desprimor algum do bom que é encontrar por aí uma meia laranja simpática que nos encaixe bem, mas é tão mais compensador perceber que afinal nos bastamos, que afinal sempre nos bastámos… e só não o sabíamos!

Vou só ali mimar-me mais um bocadinho. Feliz dia dos namorados e amem-se sempre muito.

domingo, 9 de fevereiro de 2014


Ando com um choro atrasado, uns três ou quatro dias sensivelmente. Enfureci-me, ouvi RATM até não poder mais, e depois fiquei à espera de chorar, mas o choro não veio. Pensei ludibriá-lo com a ajuda de um filme. Choro em quase todos, identifico-me sempre com esta ou aquela cena onde revejo sentimentos que eu própria já senti. Escolhi um filme com elevado potencial lacrimejante, mas ao fim de trinta minutos já dormia. A raiva afinal deixou-me entorpecida, vulnerável ao cansaço acumulado de todas as noites mal dormidas. O álcool tão pouco fez alguma coisa por estas lágrimas que insistem em não sair. Bebi, mas ao invés de chorar, sorri apenas. Abracei a minha amiga, e juntas sorrimos ante a imprevisibilidade do que nos vai acontecendo, e nem pela força do abraço sincero que me deu me venceu a vontade de (não) chorar. Então música, senhores. Os mais graves acordes, as delicodoces melodias, rimas arrastadas de amor, de despedida, de querer sem poder ter. 

Nada.

Zero. 

Nem uma lágrima que se pudesse ver. E ainda assim não o sinto reclamar. As costas não se prendem mais de ansiedade nem de dores camufladas, a sede não é mais incontrolável - sim, porque ninguém aguenta beber cinco litros de água num só dia - a melancolia não é mais senão um passageiro estado de espírito com pouco tempo para se acomodar. O corpo parece ter-se estranhamente habituado à não tristeza, a um conquistado e merecido optimismo. Mas quando voltarei afinal a chorar?