segunda-feira, 29 de junho de 2015


Há metafísica bastante em não pensar em nada. 


A frase persistia em andar-lhe nos pensamentos ia para dias, não sabia porquê. Talvez porque desejasse simplesmente não pensar em nada. Fosse porque dava trabalho, fosse porque às vezes doía, sempre uma remota memória das coisas más que marcam. No exercício inglório de tentar vetar a cadência aos pensamentos, distraía-se movendo os dedos pela pele despida, entre o espaço que ia do osso firme da sua anca à derme suave que anunciava um princípio de seio. Sentia-se desejada e desejável, ciente do poder de abstracção que os seus dedos imprimiam em contornando as formas irregulares do seu corpo. Assim despidos sobre a cama, os corpos apresentam complexidade menor que a metafísica do em nada pensar. Despojados de amores e de ambições, tolhidos de esperanças ou de futuros, caminhando juntos para coisa nenhuma. A beleza que há em nada querer, em nada crer. Nada se querendo, tudo é muito, e em nada crendo, o peso dos dogmas é tanto como o de uma pluma. De tábuas rasas de compõem os dias.



Procrastinando o banho que a espera, prolonga-lhe o cheiro da pele que ele teima em lhe roubar. Lembrou-se que o dia mais longo do ano era aquele mesmo domingo, o dia em que exactamente às 17h38 as tardes mornas da primavera cediam lugar às tardes proibitivas de verão. Pensou no solstício e em quanta poesia ingrata cabia numa cama vazia no dia mais longo do ano. A vida cheia de paralelismos, e ela sempre tentando encontrar ligações entre os pontos, como quem une constelações em observando céus estrelados nos Verões da vida. Recordava a noite em que tinham soltado uma luz esvoaçante em direcção ao breu da noite, e em quanto de intenções nela tinha depositado, as esperanças que havia semeado naquele lugar. Tudo fumo, tudo pó. Sobravam apenas os corpos sem roupa, sobrava apenas a cama sem lençóis.

domingo, 14 de junho de 2015

histórias de amor em dias de chuva



Tanto ele como ela têm já mais de oitenta anos. Oitenta redondos anos. Conheço-os há uns três anos, vejo-os aqui e ali no espaço dos meses, mas só desta vez me sobraram uns minutos no meio da correria para escutá-los e observar a ternura que ainda se dedicam todos os dias. 

Enquanto me contavam a história que os une há mais de cinquenta anos, ela olhava para ele enternecida, ele passava-lhe a mão pelas costas no maior carinho que alguma vez tive o privilégio de presenciar. Ele tinha ficado dez anos em Moçambique a fazer investigação forense, ela casara-se aos vinte e um em Portugal e trabalhava numa fábrica de nylons. Mas aos trinta, uma fatalidade deixava-a viúva. E eu senti que tinha que correr para Portugal, ela estava à minha espera, disse-me ele de sorriso rasgado, como se nessa intuição conseguisse prever uma vida inteira ao lado dela. E não se enganou. Quando chegou, conheceu-a numa paragem de autocarro, e como quem compra um bilhete só de ida, apaixonou-se à primeira vista. E não se largaram mais, por mais de cinquenta anos, até aos dias de hoje. Faziam anos de casados nesse dia, 12 de Junho - fintámos o Santo António, sorriram - e tinham ido almoçar juntos ao mesmo restaurante de sempre. Embevecida, senti os olhos humedecerem-se-me na emoção de ouvir uma história assim. 

Despedi-me de ambos com os dois beijos do costume, e vi-os seguirem de mãos dadas como de costume, iam passar o resto da tarde juntos, como de costume. E nesse momento percebi que nunca tinha conhecido ninguém tão apaixonado, nem que assim tivesse permanecido durante tanto, mas tanto tempo. 

Porra, o amor.

quarta-feira, 3 de junho de 2015




Não quero viver numa casa em tons pastel, com toques subtis a cada esquina nem recantos de onde não quero sair nunca. Não quero viver numa casa amarela, cheia de sol para me alimentar a alma de coisas boas e esperanças concretizadas. Não quero viver numa casa azul, de mar e céu onde me posso perder sem nunca ter de fugir de mim nem dos outros. Não quero viver numa casa branca, onde reine a quietude e a certeza da paz conquistada. Não quero viver numa casa vermelha, cheia de amor e de promessas cumpridas. Não quero viver numa casa laranja, cheia de sorrisos e de crianças eufóricas em constante correria.

Não.

Quero tão só e apenas viver numa casa sem tecto nem chão nem paredes nem cores. Uma casa erguida de beijos e pintada de abraços teus, de ternuras infinitas e afectos desmedidos e paixão a perder de vista. Uma casa onde não falte nem sol nem mar nem céu nem paz para nos embalar nas noites melosas da Primavera, nas tardes preguiçosas do Outono. E se do alpendre dessa casa a minha vista puder alcançar os campos e o mar e o quanto de amor que neles cabe, saberei então que olhando para ti me vejo a mim, e que em olhares para mim te achas a ti. E que quem dessas riquezas se alimenta e vive, de bem algum precisa para ser completo e uno.

Assim sonhei um dia, todos os dias.

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2015

M A N O S



As noites não eram muito diferentes umas das outras. Sempre que o céu desabava para nos desarmar, o cheiro do petróleo invadia as paredes grossas e antigas da cozinha. Um lugar tosco nos abrigava a todos, esquiço de família que nunca o chegou a ser de verdade. O frio uma constante, o corpo de mãos em mãos passando da toalha de banho para o pijama, do pijama para uma manta quente que há-de deitá-lo numa cama algures lá em cima. As noites mais assustadoras, de insistir em ler um livro à luz tímida da vela, de abraçar o corpo e entregá-lo às paredes meias do frio. O inverno atravessava-nos o corpo como nenhuma outra estação, fazia de nós intrépidos e determinados sobreviventes aos caprichos das intempéries. Uma papa esbranquiçada e depois amarelada do açúcar mascavado alimentava-vos para essa noite fria que agora avançava sobre nós. Fiéis amigos, nós os dois. Sem ti eu nunca teria sido eu, senão uma sombra deambulante pelas terras que eles  nos deixaram. Espectro assombrado, sem saber o que seria de mim assim sem ti, sangue do meu sangue, irmão do meu coração.

És o meu amigo da vida, para a vida.
A vida sem ti tinha sido tão triste.

quinta-feira, 15 de janeiro de 2015

photo @ João Tamura

Hoje viajei ao passado, passei-te os dedos pelas memórias e pelos tempos que deixámos habitados em parte incerta. Viajámos pouco, tu e eu. Fixos ao presente e às realidades construídas e perspectivadas, pouco nos abstraímos, de nós mesmos e um do outro, de tão submergidos que ficámos daquele amor que me revolvia os órgãos e me transtornava cada célula. A tua pele já não adormece nos mesmos quartos que a minha, o cheiro que exalavas deixou de sobreviver às tuas partidas, e o teu peito já não obedece às leis da gravidade que inevitavelmente o atraíam para o peito que era o meu. De fundo, há uma melodia constante que me enleva e me leva, me apura os sentidos e me confunde os destinos. A saudade é agora quente e silenciosa, um hálito quente que bafejo na janela húmida enquanto a ponta dos meus dedos traça na condensação a inicial do teu amor, perdão, a inicial do teu nome. Perniciosa mas luminosa é a dualidade que me faz amar-te umbocadinhomenos/umbocadinhomais todos os dias. Sabes que as palavras tendem a esgotar-se. São já mais as que guardo para dentro que as que deixo por aí à mão de semear e de darem fruto. Tudo não passa agora de um vulto que assombra raras distracções, momentos de fraqueza em que o corpo cede e acede ao que já não é. 

Tudo uma questão de tempo(s) apenas. 
Passado. 
Presente. 
Futuro. 

sábado, 3 de janeiro de 2015



O cheiro do calor impregna o ar, o destilar dos poros relembra-nos o quão de carne e osso somos. Saímos agora da banheira branca onde nos despimos do sol e do sal, brancos e amarelos beijam-nos a vista enquanto insinuo a pele ao teu toque fugidio. Desprezas subtil a minha toalha molhada no chão molhado, peço-te ajuda com a loção e o cheiro da tua pela húmida desperta-me para a luminosidade que irradia este verão quente nesta casa de campo onde somos o mundo que nos rodeia e o quanto dele que nos cabe dentro. Repito o teu nome até onde mo permite a insensatez, intercalo-o com o meu enquanto os imprimo aos dois no branco destas paredes, nestes soalhos e pedras que pisamos descalços e perdidos de amores. A memória faz desta casa a mais feliz de todas as casas, e a mais triste quando tenho que a deixar. Triangulas a existência até onde o nosso entendimento a alcança, e tudo o resto é opacidade. 

A simbiose perfeita entre nada e coisa nenhuma.

quinta-feira, 25 de dezembro de 2014

photo @ Pedro Miguel Rodrigues 2014
PMRPHOTOGRAPHY

Há sonhos que já não se podem ter. Exemplo? Noutro dia, por uma fracção se segundos, pensei "quando tiver uma mãe, quero que ela se pareça com a Merryl Streep". Mas não, este não é o tipo de desejos que se pode mais ter, porque mãe há só uma, e a minha já não há mais. Há noites assim, que não chegam a passar de uma espera num banco vazio, cinzento esquecido numa estação de comboios. Nesta viagem não há bilhetes, nem de ida, nem de volta. Há tempos que se cruzam, vidas que se enlaçam, anos que passam e damos cada vez menos por eles. É boa a passagem do tempo, aprende-se a destilar melhor o que é bom do que não nos faz bem. A beber mais das alegrias, a sentir menos as saudades. Aprende-se que há pessoas que fazem valer os nossos dias. E que há concertos, fragmentos de músicas, que validam uma vida inteira, todos os segundos que congeminaram para que vivêssemos aquele momento. E assim ficamos, entrelaçadas uns nos outros, à espera que passe o próximo comboio, que chegue a próxima viagem. A vida pulsa-nos dentro.

domingo, 21 de dezembro de 2014

Fique de vez em quando só, senão será submergido. Até o amor excessivo pode submergir uma pessoa.
Clarice Lispector

A noite caiu já, o breu abraça implacável a cidade, indiferente ao amarelo incómodo que a iluminação pública atira para as ruas. Ainda assim embrenhada de negro, a cidade seduz e desperta-me todos os sentidos, apetece-me fotografar-lhe cada aresta, os becos sem saída, as artérias que descem das colinas para o Tejo. 
Em parando para pensar nisso, não sei de imediato o que mais me apetece: se fotografar a cidade, se fotografar-te a ti. Suspendo vagaroso o tempo e analiso-te enquanto finjo fotografar-te. No frenesim que nos compassa os movimentos, não fixei as linhas que te delimitam, então guardo a tua imagem para não esquecer nunca todos os retratos que o teu rosto encerra. Pudesse apenas fotografar-te agora, de verdade, neste momento, tão apetecível que ficas. Cada expressão que me devolves sabe-me a um frame que se quer ser captado, tamanha que é a provocação espelhada nas danças que ensaias. O melhor beijo que te dei, é aquele que ainda não te dei, aquele que insinuo suspendendo a minha boca sobre a tua, sem nunca chegar realmente a deixar os meus lábios aquietarem os teus. O teu hálito quente faz-me estremecer, ferves e eu fervi-lho na evidência da temperatura denunciada pelo teu corpo. Deslizando os dedos por ti fora, perco-me nos labirintos que te desenham e te tornam único. As cores vivas captam-me o olhar, mas não por muito tempo. Seguro de ti, queres em convencer que sabes de tudo, que de emoções estás cansado, que os meus trilhos são-te familiares, apesar da inóspita vénia que te curvo em te venerando. Tu não sabes é nada, quando podias saber tanto. E ao mesmo tempo sabes tanto, e deixas-me confusa quanto ao tanto que realmente sei. Ou será que não sei?...

quarta-feira, 26 de novembro de 2014

vizinha Lena

quarto


O meu quarto da cidade costuma dar-se ares de província, de tão silencioso que sempre fica. Só lhe faltam mesmo os pardais da província. No despido quarto de aldeia onde cresci, janela virada para a estrada, entravam sons de carros, de motas, de carroças e de tractores, do sino e do relógio da igreja - afinal, era o quarenta e um da Rua Principal, a rua que ligava o início do lugar ao largo da igreja, onde o mundo se resumia para começar e logo acabar - afinal, nada mas mesmo nada ali acontecia. Sons e os sons dos pardais. A vizinha Lena morava mesmo à minha frente e tinha árvores onde cantavam os pardais que me adormeciam quando me deitava de manhã, que me acordavam quando me levantasse cedo. 

A vizinha Lena, Quando fui viver para Roma em 2006 fiz questão de me despedir cerimoniosamente dela, porque achei que de velhinha e doente que estava, morreria enquanto eu estivesse em Itália. Fui, voltei, e ela aguentou. Aguentou Itália, aguentou Espanha, aguentou Brasil, aguentou todas as minhas outras idas e vindas. Pelo meio das viagens até a minha mãe partiu, mas a querida da vizinha Lena lá ficou, de pé, até hoje. Penso nela tantas vezes. E não a visito mais, porque se desfaz em lágrimas cada vez que me vê. Chora, chora muito, chora-me de amor sincero e das saudades que sente da minha mãe, da minha avó, do meu avô, e daquela nossa fase na infância onde ainda não sabíamos quão cruel a vida podia ser. Saudade daquela idade onde o que o meu mano mais queria era passar os dias pelos campos, alfaias agrícolas que o rodeassem, terras para amanhar, animais por alimentar. Francisco, onde andas? E íamos dar com ele a almoçar ou a jantar na casa de um vizinho qualquer a quem passara o dia a ajudar, de volta de alguma fauna ou de alguma flora. Uma vez desapareceu uma tarde inteira. A minha mãe desesperada, eu a chorar aflita no quarto a aceitar que nunca mais ia vê-lo, já só faltava seguir para a polícia. Fomos dar com ele, coisa mais amorosa desta vida, a dormir a sua sesta  dos quatro aninhos dentro de uma antiga coelheira que já não usávamos. 

Entre o tudo ficar estranho e o não termos consciência nenhuma do que vivíamos, passou não muito tempo. Os pássaros nunca deixaram de cantar, mesmo se na casa os barulhos eram dolorosamente ensurdecedores. A vizinha Lena nunca deixou de nos abraçar com tamanha ternura, a ternura que já não temos do avô nem da avó, e que todos os dias tanta falta nos faz. E os ruídos da Rua Principal nunca deixaram de invadir o quarenta e um, mesmo se os que de lá de dentro saíam pouco fizessem pela nossa salvação.

A província, sempre a província, vincada e amarrada agora e para sempre, ámen.  

quinta-feira, 13 de novembro de 2014

quem é quem


 Não, não quero mais gostar de ninguém porque dói. Não suporto mais nenhuma morte de ninguém que me é caro. Meu mundo é feito de pessoas que são as minhas – e eu não posso perdê-las sem me perder.
Clarice Lispector

Ainda não te digeri bem.

Caíste-me mal como uma cerveja morta em final de noite, que já não aquece nem arrefece, só estorva. Usurpas com doentia mestria a libido alheia, completamente indiferente aos danos colaterais do teu hedonismo. Para quê então essa falsa mansidão com as palavras, para quê fazer das conversas um chá das cinco, quando sabes que o teu propósito é sempre e só o de te servires dos outros a teu bel-prazer ?

Nunca tiveste muito jeito para te desfazeres de coisas velhas. As escovas de dentes já descartadas e esquecidas meses a fio pelos WCs, o pomposo séquito das lâminas usadas e ferrugentas amontoadas umas ao pé das outras, as especiarias caducadas há meses, anos atrás jogadas pela cozinha, o frigorífico, fiel depositário de alimentos decompostos ou em vias de.

Às pessoas fazes o mesmo. Deixa-las habitarem-te indefinidamente, perpetrando memórias que já ninguém quer, procrastinando como quem dança à volta do inevitável. Se pudesse, processava-te em saquinhos de chá enquanto durasses, para te ferver e te beber em vagarosos tragos, até que te esgotasses dentro de mim em sabores de frutos e de flores.

A última vez que fiz o percurso do rio, senti o estranho descompasso do amor desconjuntado que às vezes levo a passear. O coração em arritmias leves, quase inaudíveis, lembrando que a presença do corpo não é senão um luxo que a poucos assiste, quando as almas são inseparáveis, desde sempre e para sempre.


Insistes em bater dentro de mim. Tão mais fácil se fosses só um saquinho de chá.

segunda-feira, 10 de novembro de 2014

manhã



Deixei-me ficar a observar-te enquanto no teu rosto se desenhavam subtis esgares de prazer em absorvendo a luz que invadia o quarto, e acordavas para mais um dia em que te vou amar. Assim desarrumada na tua imperfeição, ainda mais perfeita me és. Bocejas ainda as memórias dos sonhos que sonhaste, e dentro de minutos, os pós e os líquidos da tua maquilhagem vão tomar conta do teu rosto, para te aprontar para os outros. Mas aqui, desalinhada e descomposta, só eu me posso deleitar de te ver assim cândida, os teus olhos devolvendo-me os brilhos essenciais da manhã, as primeiras esperanças do dia que aclara, as ambições de toda uma vida. Seguir os teus movimentos relembra-me o sentido mais primordial da existência, a urgência primeira de me satisfazer em te ver a ti satisfeita, radiante, feliz, amada, completa. E que nada mais importa senão tu e eu, que quase expludo de felicidade quando te vejo sorrir, que trocava a minha vida inteira por uma noite partilhada contigo. Em eterna doçura beijas-me a testa, os teus cabelos caem sobre o meu peito, apartas-te de mim e foges para a cozinha. Pouco depois chegam-me os vapores do café que preparaste. Cheiras-me ao açúcar que deitas na chávena e a campos onde a chuva acabou de cair, cheiras-me à visão límpida do infinito que fica quando as primeiras águas do outono assentam as poeiras da terra, deixando limpo o teu pedestal. Estranha divindade que tu me saíste. 


Porra, estou atrasado.  Outra vez.

terça-feira, 4 de novembro de 2014



Saudade é um pouco como fome. Só passa quando se come a presença. Mas às vezes a saudade é tão profunda que a presença é pouco: quer-se absorver a outra pessoa toda. Essa vontade de um ser o outro para uma unificação inteira é um dos sentimentos mais urgentes que se tem na vida.
Clarice Lispector


À minha volta, contavam-se quase duas mãos cheias de corações partidos. Todas mulheres, todas sabiam de cor e salteado o outro amargo lado do amor. O lado obscuro da perda, do desaparecimento, esse lugar estranho onde a saudade manda mais que tudo o resto. Amor esse que é indubitavelmente a força maior da condição humana, construtor e demolidor, sereno e implacável. Em ritmados rituais, purgavam as dores da alma balançando mantras de esperança e de amor que se quer cumprir. Audaciosas bailarinas, agitavam-se na urgência de se cumprirem no seu propósito, recetáculos intemporais de compaixão e de vida. A dança enleva os corpos, tudo se transcende na compassada síncope dos braços que balançam, das pernas desenhando orações. No turbilhão das estrelas que caem lá fora, na esperança dos desejos que encetavam os corpos. Almejamos mais, muito mais. O mundo é todo nosso e de mais ninguém. 

segunda-feira, 27 de outubro de 2014

Horário de Inverno



…e que nada nem ninguém é mais importante do que nós próprios. E não devemos negar-nos nenhum prazer, nenhuma experiência, nenhuma satisfação, desculpando-nos com a moral, a religião ou os costumes. 
Marquês de Sade


A hora mudou. Este horário de inverno não mais me permite tactear-te corpo fora e descobrir os teus relevos por entre as roupas da cama escondidos ainda pela escuridão da manhã, pois que logo os primeiros raios das novas horas te põem a descoberto, serena e imperial, à mercê do meu ávido olhar que se quer consumir de tanto de observar. Nunca aprendi a escapar à tua intrincada sedução – nem tão pouco sei se alguma vez o vou querer. A mulher alguma devia ser permitida tamanha lascívia, homem nenhum devia ser sujeito a semelhante tentação. Mas cada molécula de ar que me permites partilhar só a ti pertence, e não é senão um privilégio inspirar esse mesmo ar que a ti te mantém viva, e vivo continuar também eu para te respirar por mais uma noite.

Anoitece mais cedo, mas nem por isso voltas para mim quando o sol se põe. Fazes-me sofrer, sabes tão bem como me fazer mendigar a tua atenção e deixares-me suspenso na adivinhação dos teus próximos passos. Venero-te, sabe-lo como ninguém. E melhor que ninguém, sabes também que me envolves no fumo dos cigarros que para meu deleite fumas noite após noite uns atrás dos outros, pendurada na varanda sem roupas que te vinquem as magnânimas curvas, nem costuras que separem a minha pele da tua. A envolvência dos fumos que preenchem as quatro paredes da alcova, a tua tenacidade em reter o filtro sem nunca perderes a candura como se virgem intocada fosses, como se do mundo nada soubesses, como se de mim não precisasses.

Fuma, fuma só mais um, antes de deixares de vez os teus vícios e manias de gente grande e te abandonares a estes lençóis brancos onde não és mais senão comum mortal como eu, onde o teu ser não mais supera o meu, onde te encontro e te sou igual.

Fuma, fuma só mais um e entrega-te aqui, a mim, agora.


Fuma, fuma só mais um.

terça-feira, 21 de outubro de 2014

Sou qualquer coisa que fui. Não me encontro onde me sinto e se me procuro, não sei quem é que me procura. Um tédio a tudo amolece-me. Sinto-me expulso da minha alma.
Livro do Desassossego por Bernardo Soares

Só o palrear dos grilos acompanha o lusco fusco matinal em que me sento. Acendo um cigarro só pelo prazer de ver o fumo competir com a neblina que se me assenta na pele. Arrepiei-me e tu nem deste conta. Presságio ou não do teu apartamento. Quem sabe? A manhã ameaça já despontar, o relógio parou entre as sete e as oito, e tu desenhas ainda sem parar. Desenha-me outra vez, penso para dentro, enquanto queimo mais um bafo no cigarro. Despi-me das amarras e fui tudo o que nunca alguma vez pensara ser possível. A pessoa mais feliz do mundo, mesmo depois de tudo. Mesmo depois de tudo, a pessoa mais feliz do mundo. Doce privilégio esse, amargo o gosto de quando se evapora a gota última desse elixir que chamam de felicidade. Humedeço os lábios, em te pedindo na penumbra da manhã um último beijo que nos enleve para sempre no chamamento que o destino nos faz. Que fragmento bizarro, esta madrugada abafada e disfarçada de fria. Nunca te sentaste comigo nestes degraus a apreciar a quietude do campo, a inércia da vegetação, a diversidade dos teus verdes. O mundo jaz aqui aos nossos pés, este chão, estas fundações, este pedaço de terra onde nos pertencemos noites sem fim, onde o mundo começa e acaba em nós. Pouso os pés descalços no chão frio e sinto a tua mão descer-me sobre o ombro, a chamar-me para a tua cama. 
Vou já, meu amor. Espera por mim, que vou já, meu amor.

quarta-feira, 15 de outubro de 2014



“Só há um recanto no universo que estamos certos de poder melhorar, o nosso próprio eu”. 
Aldous Huxley

No meio da música frenética e da pista onde somos inevitavelmente acotoveladas, ela abraçava-me com força enquanto me dizia tu tens tanto. DIZ?, gritei eu confusa, ao que ela repetiu tu tens tanto. E abraçadas ficámos enquanto deixámos a música - cujo amor partilhamos com a mesma intensidade – embalar-nos por mais uns minutos, por mais uma noite, por mais um verão.

Já não estava habituada a ouvir frases deste calibre emocional.

Sempre me dei melhor com o preto das palavras no branco do papel, que com a timbre da minha voz a ressoar naqueles que amo. Escrever é mais fácil, tira-me a sensação de ridículo com que sempre fico quando tenho que dizer a alguém

gosto mesmo de ti.
amo-te mesmo muito.
quero-te mesmo muito. SÓ. PARA. MIM.

Se tenho muito ou não, isso já não sei, não sei senão que penso muito. Muito mesmo, demasiadamente, ao ponto de me doer o tanto que penso as coisas, os sentimentos, o tempo, as dificuldades, as alegrias, a vida em geral, em tudo o que tem de bom e de mau. Lembro-me a esse propósito de um amigo com quem trabalhei em tempos, amigo esse que manifestava sempre a uma determinada hora do dia uma tremenda satisfação, porque o sol ao entrar pela janela lhe batia nos pés, aquecendo-os. Embora compreendesse a dimensão desse regozijo como uma coisa tão normal, de alguma maneira invejava-o ao de leve, por não ser eu própria o tipo de pessoa que se satisfaz com uns minutos de “sol a bater nos pés”. Quando a resignação deixa de constar no nosso dicionário pessoal para dar lugar à obstinação, há uma inevitável tentativa de multiplicação desses momentos em que o “sol nos bate nos pés”. Uma busca que chega a ser cansativa por esses tais momentos em que sentimos que temos tanto. E afinal, todos nós temos tanto. 

É só parar para escutar.

(TU também tens tanto, Verinha querida)*








terça-feira, 14 de outubro de 2014



Toda a vida da alma humana é um movimento na penumbra. Vivemos, num lusco-fusco de consciência, nunca certos com o que somos ou com o que nos supomos ser. Nos melhores de nós vive a vaidade de qualquer coisa, e há um erro cujo ângulo não sabemos. Somos qualquer coisa que se passa no intervalo de um espectáculo; por vezes, por certas portas, entrevemos o que talvez não seja senão cenário. Todo o mundo é confuso, como vozes na noite.
Livro do Desassossego por Bernardo Soares

Deus não se apieda de quem muito ama, de quem ama mais do que pode, de quem dentro tem tanto amor que sente as veias implodirem de não conterem tamanha violência de sentimentos. Pois que toda a vida te tenho vindo a chorar, e que todas as horas te tenho vindo a sofrer, e por todo o tempo te tenho vindo a cantar, e com todas as palavras te tenho vindo a (d)escrever. E em te achando te perco outra vez, para a mim me achar outra vez embriaga do amor que tenho para te dar. Todo, imenso, gota por gota, beijo por beijo, toque por toque. Repito-te, repito-me, vezes sem conta, as vezes que forem precisas para antes desta vida e depois da próxima, me voltares a encontrar, homem ou mulher, e me voltares a deixar amar-te. Triste fado, o dos que amam de mais e de quem Deus não se apieda. Que um coração partido é bom, é sinal de se ter tentado. Eu nunca tentei. Amei apenas, e de apenas amar desamada fiquei, enrodilhada nos meandros vis do sentir, do querer, do olhar sem pestanejar e sem querer um ar que encha os pulmões. Porque no amar não se respira, o corpo tolhe-se das necessidades vitais para se entregar à primeira, última e única necessidade vital, e sem a qual ele não se sustentaria de pé - a de amar. E amando tola, vou-te continuar a amar, e a chorar-te, e a sofrer-te, a cantar-te e a (d)escrever-te, as vezes que forem precisas para que ainda antes desta vida e depois da próxima, me voltes a deixar encontra-te.

terça-feira, 26 de agosto de 2014

A religião que pratiquei escrevia-se com as letras do teu nome. Tua amiga e tua amante, agora e para sempre, Ámen. Une-nos um horizonte comum, um passado e um futuro, sem nunca nos chegarmos de verdade a encontrar no presente, no aqui e no agora. E agora que te vejo, cruamente transparente, de ti me despeço em oficiosa cerimónia, cinzas ao alto e um munto de infinito por abraçar. De ti me aparto e me apago, escrava velha das velhas orações que elevam e que te louvam, refém intrépida de te saber parte indelével de mim. Tu sabe-lo, eu também o sei, e assim me despeço e me faço ao caminho

Adeus e até amanhã e até ontem, mas nunca até hoje.


segunda-feira, 28 de julho de 2014

conselho



O amor é isso mesmo, meu caro Kafka. Tu é que andas nas nuvens e experimentas todos esses sentimentos maravilhosos, do mesmo modo que só tu é que desces ao abismo mais profundo da angústia. E o teu corpo e a tua alma têm de suportar. Estás entregue a ti próprio.
Haruki Murakami in Kafka à Beira Mar

São ainda poucos e dormentes os minutos que passam das sete na Figueira. Uma ou outra carrinha abastecem o mercado, enquanto pombos e gaivotas disputam lugares privilegiados no terraço do Hotel Mundial. Um homem de idade avançada senta-se na paragem vestido de colete fluorescente, impregnando o ar do álcool que acabou de beber, tal é a intensidade do cheiro que oferece a quem por ali espera que algum autocarro se digne a passar. As nuvens cinzam o dia de um exacerbado dramatismo, quando não passa de uma qualquer sexta-feira onde provavelmente nada de extraordinário vai acontecer na vida das pessoas que por ali se amontoam. No painel amarelo coçado lê-se que mais dez longos minutos separam os passageiros da chegada do malfadado transporte, pois que é o tempo que falta para que algum autocarro se digne a passar.

A senhora dos seus setenta anos sentada a meu lado tem um doce cheiro a sabonete que me faz lembrar da minha avó – provavelmente também usa Feno, como a minha avó usava. Imbuída de uma bizarra nostalgia trazida pelo cheiro daquela senhora, sem dar por ela há uma lágrima que em carregando uma imensa saudade de outros tempos, aterra feroz na blusa de algodão que trago nesse dia. Não me apercebi dessa súbita melancolia, tampouco que chorara, até que sinto uma mão firme segurar-me o braço, enquanto me dizia num tom doce

Não chore menina, que não vale a pena. Eu chorei muito, sabe. Mais do que se pensa que um corpo frágil como o meu poderia aguentar. Mas chorei, aguentei, e aqui continuo. E sabe o que retiro daí?

Não, disse-lhe eu, ainda surpreendida com tão vespertina e inesperada abordagem.   

Que andamos cá tempo demais para aquilo que sofremos. Esta vida tem mais coisas más que boas, e se às más as choramos todas, já as boas nem sempre valorizamos nem lhes damos o devido apreço. Cedo aprendi que uma vida feliz e sem percalços é privilégio de uma minoria, onde infelizmente não me tocou caber. Por isso lhe digo menina, não chore que não vale a pena. Eu do tanto que chorei, pouco me aliviou, de nada me serviu tanta lágrima, tanta dor, tanta miséria e tanto comer do pão que o diabo amassou. Acabei sozinha, mas ao menos não acabei triste. E sabe porquê? Porque deixei de me permitir sentir. A tristeza era tanta, que escolhi deixar de lhe dar lugar. Hoje palpo a solidão que me rodeia como se de algo físico se tratasse, tal é o tamanho do monstro. Mas ao menos não choro mais. Vá por mim, menina, não chore que não vale a pena.

e sem me deixar tempo de processar, agradecer ou sequer comentar o que acabara de me transmitir, rematou logo muito despachada, em total contradição com o tom das suas palavras

Olhe, e já lá vem o autocarro. Sacana, sempre atrasado.

quarta-feira, 25 de junho de 2014


I drink much more than I ought to drink
Because it brings me back you...


Hoje quando me cruzei comigo no espelho, por pouco não me reconhecia. Olhei com mais atenção e vi o que me pareceu claramente ser uma mulher de quase trinta anos, roupas claras, pele morena, cabelo desalinhado mas arranjado para trás como que clamando respeito. E em olhando mais dentro, vejo de relance todas as pessoas que afastei de mim sem pensar duas vezes. Um após o outro, despedi-me de todos eles sem dó nem piedade. Uns sofreram mais do que outros, outros sobreviveram mais indiferentes, mas a todos acabei por abandonar, presa à vincada certeza que nenhum deles era o tal. E escrevi-lhe tantas cartas, e chorei-lhe tantas lágrimas, e o vinho que bebi enquanto esperei e cogitei, e os cigarros que engoli sentada esperando tão desejada aparição. 

Oh, evidências. A evidência terrível de um destino que nunca se me afiguraria favorável, mas ainda assim tão tentador. A vontade incontrolável e selvagem de mergulhar num pernicioso mundo de onde não poderia senão sair o escombro do que um dia fui. E assim foi brusca, impensada e dolorosa a força com que embati o corpo contra o teu, e lentamente o vi destruir-se tal foi a violência do impacto. E ainda assim, tudo o que mais queria era apertar-te até me confundir contigo e nunca mais te perder nem ver noutro lado que não fosse dentro de mim. Para sempre.

Hoje brindo à tua sagacidade, pois rapidamente percebeste a incompatibilidade permanente que nos uniu para depois nos apartar. Brindo a tua coragem, pois logo pequena me encolho ante o peso com que me esmagas em cada relance que me deites, em cada ar que ouses partilhar comigo, em cada linha de mar que é minha e tua quando as areias voltam a ser nossas. 

quarta-feira, 11 de junho de 2014

 
 
Parabéns, mano querido.
 
Ontem completaste um quarto de século, e espantada olho para ti e nem me acredito, essa tua cabecinha loura de corte à tijela cresceu e fizeste-te um homem, bem debaixo dos meus olhos. O dia em que nasceste é provavelmente a memória mais antiga que carrego comigo. Mais antiga que o primeiro dia em que escrevi o meu nome sozinha pela primeira vez, e que eu jurava a pés juntos ser a mais antiga das minhas memórias. Mas não, tu vives cá dentro há mais tempo do que as letras e a vontade de as pôr juntinhas umas à outras. Não que me lembre de ti propriamente, nem te ver deitado no teu berço. Lembro-me de ti e do dia em que nasceste, porque quando te visitei já havia bolo de aniversário. Com os quatro anos que tinha, achei normal teres bolo assim acabado de nascer. Mas afinal o bolo não era teu, e sim da mãe, que fazia anos hoje, logo um dia depois de ti.
 
Parabéns mãe, temos saudades tuas. Ele não me diz, mas eu sei que não sou só eu.
 
Isto de seres a minha primeira memória tem que se lhe diga. A minha vida seria tão mais incompleta se não te tivesse por perto, se não me irritasses tanto às vezes, e se não me fizesses rir outras tantas. A verdade é que te amo o tanto que uma irmã pode amar um irmão, quando esse irmão é amigo, é parceiro, é a família mais chegada que nos resta. Esse irmão és tu, e pese embora a maior parte dos dias me apeteça gritar-te aos ouvidos todas as coisas boas que as manas mais velhas querem ensinar aos manos mais novos, nos outros dias todos gosto de ti e sinto-me uma privilegiada por te poder ter por perto, e por sermos irmãos e amigos. De seres a minha mais antiga lembrança, é daí que deve vir esta minha insaciável necessidade de te ver bem, de te saber bem, de te querer bem. E olha que os amores vêm e vão, a vida já no-lo ensinou bem. Mas este amor de irmãos, é daqueles que nem tempo nem distância apagam. É para sempre.
 
Por isso mãe, e apesar de hoje ser o teu dia, ontem foi o dia dele. E o mano cresceu, e sei que ias chorar de orgulho se o pudesses ver. Hoje sou só eu que tenho esse privilégio, e por isso desculpa se hoje te dedico apenas uma ou duas frases, mas não quero chorar a tua ausência, e sim festejar a presença dele.
 
Os dois de parabéns, os dois a encherem-me o coração, de amor, de saudades, de remota memória do que um dia foi a sombra de uma família (quase) normal.