terça-feira, 13 de maio de 2014


"Leaving is not enough; you must stay gone."
Frida Kahlo para Marty McConnell


Diz-me que não

Não consigo

Diz-me já, com todas as letras, JÁ-NÃO-QUE-RO-ES-TAR-MAIS-CON-TI-GO

Não posso, não consigo, não sei

É no mínimo insensato esperares que eu o faça, se tu próprio és a vítima primeira de uma afasia ridícula que não to permite verbalizar, tampouco concretizar em gestos que não contrariem tudo o que dizes.

Apertaste o corpo contra o meu com violência, não permitindo um milímetro de espaço entre nós.

Sufocaste de beijos sôfregos a minha boca, mal conseguia já respirar.

Velaste-me em cuidados mil, levada ao colo num abraço de uma noite maior que a vida.

Apertaste-me o queixo entre os teus pequenos dedos e repetiste-me à exaustão

Olha para mim

Olha para mim

Olha para mim

Subserviente, olho para ti há tempo demais. Olho para ti desde que a tua presença me desinquietou no meio do alvoroço feliz em que me encontraste um dia, olho para ti desde que o teu carinho me resgatou à mais longa e escura noite em que já dormi, olho para ti desde que o teu desassossego me contagiou irremediavelmente e nunca mais a letargia fez parte do meu vocabulário.

Olho-te, mas não consigo mais prender-me ao fundo dos teus olhos. Porque quando o faço, sempre encontro um trejeito que contraria cada palavra que proferes. E por mais que me apeteça lá ficar, sou obrigada a olhar noutra direcção, para não ver mais verdades nos teus olhos que mentiras na tua boca.

Valesse mais um olhar que se oferece que o som de uma palavra.



segunda-feira, 5 de maio de 2014

Da serena(idade)



Encho os pulmões de ar, o comprimido já fez efeito e já consigo respirar sem dor. As dores nas costas não me largam, malvadas. Seja a idade, o stress ou a ansiedade, o que é certo é que já não passo sem yoga, massagens periódicas, comprimidos em S.O.S. e uma ou outra sessão de fisioterapia. E não, não tenho sessenta anos, ainda não vou a meio dos vinte e nove e já me pesam os balanços que antevêem os trinta. Os balanços, e as dores nas costas, malvadas. Num cenário optimista (ou será pessimista?...), um terço da minha vida já lá vai, o que já me confere alguma autoridade para tais balanços, olhar para trás e para frente, apontar baterias para os sítios “certos”. Ainda não casei, nem sei se alguma vez o farei, e o pesado baú de madeira que mantenho desde a infância já pouco enxoval guarda, um pano ou outro de cozinha que tenha sobrevivido às minhas investidas, e aqueles lençóis fora de época que nunca hão-de servir para nada. De resto, pouco me sobra das incumbências provincianas com que fui educada, se é que se pode chamar educação àquilo que me foi (ou não) transmitido enquanto crescia numa aldeia onde as mentalidades continuam impermeáveis e as línguas se preservam afiadas.

Duas longas relações findas porque pura e simplesmente não tinham que ser, outras tantas amizades purgadas pelo tempo, e descubro agora os prazeres da individualidade mas também de me rodear exclusivamente de pessoas que me querem bem, que me fazem bem, que me fazem mais feliz. E enquanto cresci e cresço, demorei a percebê-lo, mas entendi finalmente que o processo de amadurecimento não é mais senão a constante aprendizagem da moderação das expectativas. Uma vez moderadas, tudo se torna tão mais simples. Com seis anos, sonhava ser astronauta e explorar o espaço, mesmo com as constantes ameaças do meu avô em me deserdar se eu não me tornasse enfermeira de guerra. Nunca cheguei a perceber em que guerra me queria ele, daquela altura recordo os conflitos na Bósnia e a guerra no Golfo, e não percebia para qual delas iria eu nem que propósito teria isso para o meu avô. O certo é que não virei enfermeira de guerra, muito menos astronauta, e acabei na mesma sem herança que se pudesse ver. Lembro-me mais tarde de ver escrito nas portas dos bancos que encerravam às 15h. Achei maravilhoso e convenci-me de que um dia ia querer trabalhar num banco e sair às 15h para ir para a praia. Claro que à época ignorava o tom premonitório de tal ambição, e também o quão errada estava em achar que ia ter um trabalho onde saía às 15h. Mas isso já são outras histórias. Volvidos outros tantos anos, apaixonei-me pelos direitos humanos, pela diplomacia e pelas relações internacionais, e convenci-me de que podia salvar o mundo, trabalhar com refugiados, levar água a aldeias remotas em África, fazer chegar alimentos a crianças famintas, promover discussões acesas em fóruns onde estes temas fossem a ordem do dia. Mais uma vez, a vida condicionou-me totalmente as expectativas que por tanto tempo alimentei. A morte precoce da minha mãe fez de mim e do meu irmão as crianças famintas e sedentas de uma mão que nos salvasse. Mas não, não houve mão que nos salvasse, nem milagre que nos retirasse de um cenário muito provavelmente drástico, não fosse uma vincada resiliência e teimosa vontade de vingar. As mãos que nos salvaram acabaram por ser mesmo as nossas, ao cabo de muitas horas de trabalho precário, mal remunerado, sem benefícios, e dois anos inteiros sem saber o que significavam férias, viagens, lazer. O alimento era a prioridade, tudo o mais era supérfluo. Deste período, poucas relações sobraram. Arriscaria mesmo dizer que os dedos de uma mão são suficientes para contabilizar os amigos que se mantiveram, não obstante a turbulência a que me vi exposta. Ninguém tem paciência para lidar com uma pessoa em luto atribulado, coroada por uma pseudo maternidade assumida em relação ao meu igualmente órfão irmão, e uma total incapacidade financeira de participar em actividades sociais. Não era de facto a amiga mais óbvia, nem a primeira pessoa a quem se lembravam de ligar, invariável que era o meu “não” aos convites recebidos, constante que era o meu desespero pelo futuro ainda por vir, pelas contas por pagar, pela comida que o estômago nunca deixava esquecer. Ainda noutro dia partilhava com um amigo a história - hoje quase engraçada, mas à data sem piada alguma – do dia em que passei fome. Sim, dia no singular, porque foi mesmo só um dia. Um final do mês dramático em que os parcos salários chegaram para as responsabilidades mais imediatas, mas não para aprovisionar dispensa nem frigorífico. Prometi a mim mesma que aquele seria o primeiro, único e último dia em que passaria por uma situação tão limite quanto a de querer comer e não ter poder de compra para o fazer. Mas isso já são lides para outras conversas. E onde é que eu ia mesmo…? Ah, sim, nada como uma boa tragédia de faca e alguidar para ver quem são os amigos dignos desse epíteto, e quem são os que se limitam a figurantes. Assistem sentados e aplaudem, mas não participam. E de figurantes acabam por não passar.


Moral da história? Moderar expectativas é primordial, seja em relação aos amigos que vamos tendo, seja nos romances que vamos alimentando e que invariavelmente falham, seja no trabalho que fazemos, sabido está que estamos longe de salvar o mundo. Contextualizar o que nos acontecesse, agradecer o bom e saber lidar com o mau. Sem esta moderação, seremos incapazes de discernir os momentos que definem a nossa vida, e a sensação pulsante e viva de sermos ou não felizes. E ninguém quer ver turvos esses momentos, aqueles que superam todas as expectativas, das mais humildes às mais arrojadas. É que é nessas alturas, em que a luz é mais clara, os sons mais nítidos, os odores mais apurados, que a felicidade se insurge. E ninguém a quer deixar passar despercebida… pois não?

sábado, 26 de abril de 2014



Um coração nas mãos erradas é 
Uma alma cheia de nada, 
A morte da gargalhada 
Relento e noite gelada. 

É como a rosa coberta em geada, 
Uma imagem linda com uma história trágica, 
Pinta um retrato e guarda, 
Já sabemos como a história acaba. 

E em dias de menos glória, 
Repetidos, como as histórias, 
Os punhos estão cerrados. 

Todos os contos são vãos 
Ainda com o meu coração nas mãos 
Dedicas-me um aplauso. 

Aplauso, António Galvão


Quando arrisco olhar-me para o corpo, encontro apenas os vincos da roupa que nunca chego a despir. Desfio incontáveis os minutos que durmo em te esquecendo, e em te esquecendo encontro arestas, pontos arenosos, trilhos recortados na pele que oxigeno por fim. O caminho de ti até mim fez-se atribulado, e a chegada não traz muitas mais respostas, senão tantas outras questões que ficam para serem respondidas noutros tempos, noutras pessoas, noutras memórias. Do vazio já muito pouco sei. Revezo-me a mim mesma nas noites veladas onde só eu, assim sozinha, me acompanho me embalo me amo. Ao coração que despedaçado jazia, guardo respeito, inteira admiração, prostrada vénia como quem diz adeus, não mais voltes, não mais me quebres para nunca mais me reconstruires. De agulha e linha tanto me cozi, que a agulha quase quebrada pouco ajuda a linha que ameaça chegar ao fim. Do tecido novo que se fez cicatriz faz-se também pele nova, a pele que há-de suster os outros baques e todas as batalhas por travar. 

segunda-feira, 24 de março de 2014

es(tática)



O silêncio que veio ocupar o teu lugar tem a capacidade por vezes de ser violentamente ensurdecedor, vetando a sequer remota possibilidade de produzir pensamentos dignos desse nome, tal é o espaço vazio que força dentro de mim.

Podias ser uma cidade turbulenta, frenética, pintada, desorganizada, sufocante, arrebatadora, barulhenta.

Como podias ser floresta, confusa, indefinida, selvagem, fresca, impenetrável, caótica, barulhenta.


Mas não, escolheste ser silêncio, e a privação do som pesa mais que a cacofonia que ninguém entende. O silêncio também não se entende, especialmente quando faz doer. 

sexta-feira, 21 de março de 2014

sentidos



A evolução requer que se reúna o batalhão dos sentidos. A construção de novas memórias olfactivas, o desconstruir dos pontos de vista, a reorganização interna dos sons, a procura de paladares desconhecidos, a sensibilidade à flor da pele estimulada por novas sensações. Não é fácil arrancar o rosto mais familiar de todos da cidade que nos é também a mais querida. Menos fácil ainda é arrancá-lo à linha de horizonte que desenha o mar, porque o mar é igual onde quer vá, é arrancá-lo às nuvens que se desenham no céu, porque invariavelmente o céu e as nuvens são iguais de onde quer que os veja, é arrancá-lo a todos os sítios onde insiste em sobreviver estampado, vívido, incómodo. Embora não deixe de ser um rosto difuso e cada vez mais esbatido pelas falhas da memória, é essa mesma memória que traiçoeira mantem vivas as ausências que mais doem, renovando-as onde já não fazem falta nem são desejadas, mas mantendo-as vivas. Continuo à procura de sítios onde não substituam moléculas nem poeira cósmica deixadas pela tua passagem. São poucos, alguns já os conheço e outros hei-de descobri-los. Até os ter todos para mim, vou contornando um vulto teu que volta e meia se me assoma, para me lembrar das palavras do poema, que o amor é uma doença, quando nele julgamos ver a nossa cura.

quarta-feira, 12 de março de 2014

Carnaval dois-mil-e-catarse ou de como se faz uma foto suruba


E agora, o Brasil.

Viver um Carnaval no Rio de Janeiro foi indubitavelmente das experiências mais exigentes a que o meu corpo já sobreviveu. Empurrados pela cerveja e entorpecidos pelo calor, os membros sucumbem constantemente num bizarro limbo de dor e de prazer, mas nunca, nunca desistem. Mais um bloco, mais uma música, mais uma latinha/piriguete divida com dois, três amigos, um sacolé para refrescar, e segue outro bloco, que "o tempo ruge e a Sapucaí é grande".

Compromisso é coisa que o Carnaval carioca desconhece. As videntes que jogam búzios prometem pelas paredes fora trazer a pessoa amada em três dias. A pessoa amada está a cada esquina, e se a perdermos hoje, amanhã será desapegadamente de outro folião que calhe a aproximar-se-lhe. Já beijou hoje, oiço-os perguntar a uns e a outros, ah, então me beija. Puxa, beijo gostoso o seu. E é de beijos que se alimenta a festa mais desinibida de todas, a carne vale e vale tudo pela carne. Não se pode esperar que um compromisso sobreviva umas fugazes vinte e quatro horas. Uma hora talvez, e com sorte o destino dita o resto.

Beijos e folias à parte - que o meu corpo ainda a reclama - no Brasil fui descobrir amores e poesias raros de encontrar, e tão prazerosos de preservar. Ninguém me avisou que para além de fisicamente desafiante, esta seria uma viagem emocionalmente vertiginosa. E eu que das férias só costumo trazer cansaço acumulado e preguiça de voltar ao trabalho, desta vez trouxe um coração inundado de amor surpresa, de amigos que abraçam e me deixam impotente de felicidade, que me fazem chorar a bandeiras despregadas no aeroporto, desmastreada e perdida de voltar a este frio e a este país que julgava quente e percebo agora ser afinal moderadamente ameno, amenamente caloroso. Sem esperar, dei de caras com um povo delícia, que abraça sem meias medidas, que ama sem preconceitos, que beija como quem come um iogurte. E senti mais do que nunca o “peso” da herança comum que partilhamos, da história que construímos juntos, da bênção que é chamar o Brasil de país irmão. Ilusão da língua comum ou efeito das amizades encontradas, o certo é que nunca me senti tão em casa como neste país quente onde os insectos me devoraram sem tréguas, onde o calor impedia a maquilhagem de se me segurar no rosto, onde a cerveja substituiu a água durante dias a fio, onde a temperatura é tão alta que o mar quase não chega para a ludibriar.

Porque nasci portuguesa. Mas se perguntassem, teria escolhido nascer brasileira.


segunda-feira, 10 de março de 2014

Quem aMa Clara (com um considerável atraso de vários dias)

E lembro-me de ficar pendurada nas fotos dela, tentando adivinhar o que por aí vinha. Quem era essa total desconhecida de imagens com cores intrigantes, ar maduro e olhar pitoresco de menina curiosa. Numa foto aparecia na praia de flor na cabeça, e isso só podia ser um bom sinal, pensei. Tinha fotos de chuvas e de fumos, e tinha fotos de óculos amarelos atrevidos na ponta do nariz. E lembro-me de pesquisar o significado das palavras estranhas que trazia bordadas nas costas. 
Com o tempo percebi que a raridade é o dom de ser de algumas pessoas que pisam o chão deste mundo. E cruzar caminho com esta menina do Piauí é sinónimo de amor sendo deixado de leve e de rajada no vinco da nossa vida, porque quanto se intercepta um espírito assim, o instinto é ficar. O instinto é procurar, é amar, é dar e é querer ser melhor. E podia dizer que a partir de hoje nada muda. Que o oceano que a partir de hoje nos vai separar não vai minar os laços que criámos, que as tecnologias nos vão manter próximas, que não vou sentir a tua falta. Mas estaria a mentir, com quantos dentes tenho na boca.


Porque a partir de hoje tudo muda.
Porque nunca mais vou tomar um banho sem levar atrás o meu telemóvel com a repetitiva playlist que lá tenho dentro, coisa que aprendi contigo (a ouvir música no banho, não a ser repetitiva).
Porque vai ser difícil continuar a confeccionar pratos no forno sem lhes pôr batatas de palha em cima, ou a comer pratos com molhos, sem novamente os adornar com as malfadadas batatas que só engordam, outra das muitas coisas que aprendi contigo.
Porque tornaste o nossa economia familiar partilhada fiel subscritora da revista Vertbaudet, apesar de nenhum de nós ter filhos nem crianças por perto a quem comprar roupas por catálogo – admite, fizeste isto para nos fazer lembrar (ainda mais) de ti cada vez que a revista chegar?
Porque quando fizermos uma limpeza à cozinha, provavelmente vamos encontrar uma das tuas mil listas caída nalgum lado, seja ela uma lista de compras, de afazeres ou de coisas muito importantes de que não te podes esquecer, que tens sempre muitas. Porque agora temos um pinguim chamado Albino que vive por cima do frigorífico e vigia cada passo que damos, e sempre me lembro de ti quando o vejo empertigado no fatinho preto e branco. Porque temos receitas de comidinhas boas escritas em post-its ali ao pé do fogão que ainda ninguém teve coragem de arrancar. Acho que vão lá ficar para sempre. Tal como o amor que me ensinaste a (re)viver. E por isso te devo tanto. 

Por tudo isso e por quanto mais não cabe nas palavras, mas se ilustra nas lágrimas que deixei no Rio embrulhadas num dia de águas de março, e porque se em alguém revejo o amor incondicional e despretensioso, é em ti, Ana Clara.


sábado, 22 de fevereiro de 2014



Uma vez a minha cara apareceu pintada numa parede. Não sei se retrata um anjo uma rainha ou uma mulher para amar para a vida, daquelas que não se quer perder nunca. Depois sei que essa imagem passou a retratar uma mulher calculista, manipuladora, fria, vingativa. Oh, pudesse ao menos ser assim. Mas porra, não sou. Tu melhor que ninguém, devias saber disso. Foda-se, carrego no peito um coração que ferve e sangra sempre, mas sempre. E queria muito ter a força de odiar, mas o ódio não nasceu comigo, foi-me ensinado e queria muito que me ensinasses a ser mais como tu. Assim a julgar sem me preocupar, assim a agir e a me reflectir, assim a pintar a história em vez de a escrever. A pintura compromete menos, a palavra já não se retira, uma vez proferida basta para atingir o outro no meio da cara e deixá-lo assim nu, só, desprotegido e inenarravelmente indefeso. O corpo amiuda-se para mais um baque, para mais um confronto. Vou levar de frente com a dor e deixá-la embrulhar-me num novelo de mais mil outras dores, porque depois vou-me agigantar e sacudir de mim o que estiver a mais. 

Só tu não estás a mais, nunca estiveste. Quanto muito estás de menos. Porque vou ter uma varandinha florida onde te podias aninhar comigo e pensar em nada e em tudo, desenhar as caras um do outro e dos que ainda não conhecemos, tocar-te na mão e lembrar-te do que me fazes sentir e do quanto fazes de mim tão melhor. Tão melhor que agora estás de menos e eu estou uma fracção indecifrável sem solução à vista. Que sou um monstro, que não sou vítima, que mereço tanta responsabilidade nos actos e nas escolhas como qualquer outro. Não me dês as costas, que eu dou-te a mão e levo-te para um sítio dentro de mim que tu não conheces. Um sítio onde habitaste e agora te esqueceste de como era ameno, destinado a ser, o teu e o meu espaço.

Mas só tu não estás a mais, nunca estiveste. E quando finalmente me cortares as amarras, eu deixo-me ir. Mas por enquanto, fica só assim mais um bocadinho. A raiva afinal também é um sentimento, e ninguém disse que de sentimentos só íamos ter os bons.   

terça-feira, 18 de fevereiro de 2014



Ausência

Por muito tempo achei que a ausência é falta.
E lastimava, ignorante, a falta.
Hoje não a lastimo.
Não há falta na ausência.
A ausência é um estar em mim.
E sinto-a, branca, tão pegada, aconchegada nos meus braços,
que rio e danço e invento exclamações alegres,
porque a ausência, essa ausência assimilada,
ninguém a rouba mais de mim.

Carlos Drummond de Andrade

Engraçado como as palavras sempre nos encontram nos momentos certos. E vezes há em que os momentos se querem privados das palavras, em que fingimos que não nos vemos, não nos escutamos, nunca existimos nem sabemos quem fomos ou a sombra do que somos. Como estará hoje o nosso Oeste, teu e meu, pensei hoje de manhã quando acordava. Que podia ser uma segunda-feira antiga em que o despertador me arrancava dos teus lençóis, me roubava ao abrigo dos teus braços, para vil me oferecer ao caminho de volta à cidade. Caos, neblina, o sol que agarra no caminho do campo para a metrópole. Se hoje estivesse o tempo bom e a cidade não me chamasse impiedosa, podíamos ir tirar medidas ao mar, contar-lhe as ondas, sorvê-lo nuns beijos deixados à deriva numa falésia anónima. Pego-te pela mão e mostro-te um stencil, uma mensagem deixada num casal que dizem ser dos Patos. Tão linda, a vossa história, tão parecidos, tão doces. Custa-me ver-vos assim, sabes? Parecem uma ruína daquilo que um dia foram, e nas falésias não há curas nem palavras sábias que adormeçam a dor nem aliviem o mal de que vocês padecem. Há uma varanda para o infinito, de onde abraço o mar e me jogo ao desconhecido e à oportunidade. Respiro, e sou inteira, outra vez, só eu, insana impune indefesa.

quinta-feira, 13 de fevereiro de 2014



Parece que o corpo não realiza nada, o corpo deixa de existir, e por baixo do peignoir de seda há apenas movimento. Um movimento que realiza as formas de um corpo, por baixo do peignoir de seda. E eu me pergunto, quando ela sobe a escada, se não é um corpo assim dissimulado que as mãos têm maior desejo de tocar, não para encontrar a carne, mas sonhando apalpar o próprio movimento.

Chico Buarque in Estorvo

Estou emocionalmente indisponível. Não porque alguém me ocupe o coração, não porque seja uma intrépida feminista, não por falta de opções. Estou emocionalmente indisponível desde que me coloquei no centro exclusivo e primordial das minhas prioridades, desde que me interessei em pensar melhor a complexa personalidade que tanto me aflige e inquieta, em desvirtude de me deleitar nas personalidades de outros, que muito me acrescentam mas invariavelmente me falham num ou noutro momento.

Por gostar mais de mim do que alguma vez imaginei vir a ser possível, e sem pudor algum de o gritar a plenos pulmões sob pena dos mais variados julgamentos, amanhã não vou ter um jantar de solteiras nem um jantar de solteiros nem um jantar de “encalhados” – e usando esta palavra friamente matei o lirismo que nesta crónica restava - nem o que quer que seja que as pessoas que se sentem sós no dia 14 de Fevereiro tendem a fazer para disfarçar ausências, para camuflar uma solidão que em última instância depende tão só e apenas de nós próprios para ser extinta. Não há solidão maior do que a de não nos reconhecermos mérito suficiente para nos fazermos felizes sem dependermos da outra metade da laranja. E sem desprimor algum do bom que é encontrar por aí uma meia laranja simpática que nos encaixe bem, mas é tão mais compensador perceber que afinal nos bastamos, que afinal sempre nos bastámos… e só não o sabíamos!

Vou só ali mimar-me mais um bocadinho. Feliz dia dos namorados e amem-se sempre muito.

domingo, 9 de fevereiro de 2014


Ando com um choro atrasado, uns três ou quatro dias sensivelmente. Enfureci-me, ouvi RATM até não poder mais, e depois fiquei à espera de chorar, mas o choro não veio. Pensei ludibriá-lo com a ajuda de um filme. Choro em quase todos, identifico-me sempre com esta ou aquela cena onde revejo sentimentos que eu própria já senti. Escolhi um filme com elevado potencial lacrimejante, mas ao fim de trinta minutos já dormia. A raiva afinal deixou-me entorpecida, vulnerável ao cansaço acumulado de todas as noites mal dormidas. O álcool tão pouco fez alguma coisa por estas lágrimas que insistem em não sair. Bebi, mas ao invés de chorar, sorri apenas. Abracei a minha amiga, e juntas sorrimos ante a imprevisibilidade do que nos vai acontecendo, e nem pela força do abraço sincero que me deu me venceu a vontade de (não) chorar. Então música, senhores. Os mais graves acordes, as delicodoces melodias, rimas arrastadas de amor, de despedida, de querer sem poder ter. 

Nada.

Zero. 

Nem uma lágrima que se pudesse ver. E ainda assim não o sinto reclamar. As costas não se prendem mais de ansiedade nem de dores camufladas, a sede não é mais incontrolável - sim, porque ninguém aguenta beber cinco litros de água num só dia - a melancolia não é mais senão um passageiro estado de espírito com pouco tempo para se acomodar. O corpo parece ter-se estranhamente habituado à não tristeza, a um conquistado e merecido optimismo. Mas quando voltarei afinal a chorar?

quarta-feira, 5 de fevereiro de 2014



Dizer adeus cansa. Cansa muito. 

Despedir daqueles que amamos, renunciar a coisas que nos fazem mal e que sabem bem, deixar que o(s) outro(s) levem com eles partes de nós que só existiram naquele tempo, naquele lugar, com aquela pessoa. 
Despedir de memórias que inevitavelmente foram sendo guardadas em recônditos cantos de nós e onde já não têm mais lugar. 
Despedir de pessoas que nos marcaram o tempo de uma vida, porque um oceano separa as nossas casas, impedindo um desejado abraço, um olhar que no silêncio tudo diz, o aconchego de uma palavra que se oferece de mãos abertas, coração estendido.

Há pessoas que nos vincam forte as emoções, que nos desarmam de amor, que preenchem sem pedir nada em troca. Durante muito tempo, procurei convencer-me - força das nefastas circunstâncias da vida - que "pior não pode ser". Lá atrás já foi muito mau, mau demais para um só coração suportar. Que tudo o resto só podia ser o bom, o belo, o desejado. 

Errada, estupidamente errada, vencida de defesas projectadas pelo longo penar. 

Tenho 28 anos, a entrar nos 29 dentro de dias. A ter mais uns (optimistas) 60 anos pela frente, terei apenas vivido um terço da minha vida. As probabilidades estão contra mim, portanto. 60 anos são aproximadamente vinte e um mil e novecentos dias, noves fora nada, bissextos coiso e tal. Vinte e uma mil e novecentas possibilidades deste coração voltar a ser magoado, enganado, desiludido. E a verdade é que nada me pode preparar para o que está para vir. Nem mantras repetidos à exaustão, nem desfiadas ladainhas como quem ora, nem cartas jogadas numa mesa. Nada pode confirmar ou desmentir se o que vem é bom ou mau. Que a vida tem essa misteriosa coisa de ter que ser vivida para ser vida de verdade. 

E dizer adeus é e sempre será das coisas mais dolorosas de fazer. Seja de pessoas, seja de memórias, seja da imagem percebida que tínhamos dos outros, às vezes de nós mesmos. 

A despedida começa agora, no encontro. Tudo o resto é emoção.

quarta-feira, 29 de janeiro de 2014

metarmofosis

photo @ Telmo Rocha Silva 2014

Não sei em que tenho pensado nem quem tenho sido. Olho para trás e constato que por vezes, para uma coisa nascer, outra tem que morrer. E lá atrás ficou um caminho que podia ter sido o meu, mas ironicamente, não chegou a sê-lo. Senão, uma passagem de um violento luto, para uma vida mais plena, mais fluída, mas minha que dos que tanto me magoaram. Porque nos pensamentos já só viajam boas intenções, desejo puro de amadurecer e me dar à plenitude das coisas sem nelas me emaranhar. E tu, terno e apaixonado, seguraste na minha mão e puxaste-me de um lado ao outro, das trevas à luz, de um cadáver moribundo a metamorfose ambulante, todos os dias eclosão explosiva. Amor, amor, amor, oh tanto amor, meu amor, tanto amor que nunca te cheguei a dar. Porque no fundo de mim adormeci, acossada à pura felicidade que era ter-te só para mim, respirar o teu ar, partilhar a tua cama, ser a tua, a tua única, a primeira, a última, todas elas e nenhuma delas. Querias? Querias que tivesse sido assim diferente, assim ligeiro, assim assim, como tão bem sabíamos ser? Aventurados tantas vezes sem reserva cidade adentro, fodemos todas as esquinas, marcámos todas as praças, demos as mãos em todos os miradouros. E agora o que tenho, o que me deixaste, meu amor? Sabes o quê? Uma cidade que arde insana dentro de mim, que me corrói e provoca e me derrota para logo a seguir me levantar. Uma cidade que me faz e desfaz a cada olhar, a cada vez que te vejo menos lá fora espelhado nela, e dentro de mim, perdido, intenso, aquele olhar que só tu sabes. Fui tua, meu amor, e de mim dispuseste e desfizeste em mil pedaços que agora se reúnem, olha só, quem diria!

E eu que te amei tanto, meu amor!

terça-feira, 28 de janeiro de 2014



O esforço de tentar deslindar traços tornava-se cada vez mais inglório, pesarosamente infrutífero. Abandonou por isso a ideia de tentar compreender onde começava um corpo, onde acabava o outro. Livres de geometrias que os delimitassem, uma linha levava à outra, fazendo dum a perfeita extensão do outro, numa imprecisa matemática cuja solução não seria senão a de um encetado deleite que parecia não mais acabar. A volúpia dos gestos deixando a cada avanço um indelével rasto de lascívia, a nudez sensual à luz exposta, a carnalidade desmedida e incontrolada. Com ferocidade a pele é mordida, repuxada, natural terreno de explorações que se presta a ser.


Os odores perdem-se nos sabores, os membros aleatoriamente enlaçados, confusão, pausa. Um trago disto, um bafo daquilo, inebriam-se os sentidos uma vez mais e outra viagem logo começa. Do prazer, não ficará senão um quarto ocre, abafado, onde dois corpos jazem despidos e abandonados, inertes à figura que por fim os abandona.

quarta-feira, 22 de janeiro de 2014



E eis que sinto que em breve nos separaremos. Minha verdade espantada é que eu sempre estive só de ti e não sabia. Agora sei: sou só. Eu e a minha liberdade que não sei usar. Grande responsabilidade da solidão. Quem não é perdido não conhece a liberdade e não a ama. Quanto a mim, assumo a minha solidão. Que às vezes se extasia como diante de fogos de artifício. Sou só e tenho que viver uma certa glória íntima que na solidão pode se tornar dor. E a dor, silêncio.

Clarice Lispector in Água Viva

A atmosfera empestada de hálitos matinais e cigarros engolidos à pressa por força do frio que lá fora envolve os corpos. Nos vidros condensa-se a respiração pesada daqueles que esta manhã se juntaram a esta viagem que há-de passar o rio, a ponte, os barcos e respectivos contentores. As manhãs revestem-se de acinzentados laivos cinematográficos, os vultos arrastam-se pesarosos, iguais todos os dias, amarrados que estão às dores que carregam debaixo dos casacos das luvas dos cachecóis.

Sofro de os ouvir, condoo-me de os olhar. Esta não é a vida que projectámos, estas não são as viagens que planeámos fazer. O rio, brutalmente silencioso, encara-nos com desdém como quem convida a zarpar, como quem desafia prioridades. Eu respondo-lhe quando calha, já vou, hoje ainda não é o dia, espera. Os outros não sei se o fazem ou se se estremunham sem considerar sequer levantar as amarras e vestirem-se dessas águas que sem vergonha nos desatinam e espicaçam os mais calcados desejos.

Estremunhada também eu desde aquele tal dia. Da varanda, não mais senti um olá secreto que outrora se me estendia, senão uma malfadada aura a ti que porfia em cobrir a minha cidade desde que nela não vivemos mais, e tudo o que nela habita – eu incluída, o meu corpo incluído, a minha alma incluída – qual nevoeiro sebastiano que não há meio de se dissipar. Ouvi em confidência a alguém que cada vez que desse nevoeiro respiro, que cada vez que dessa aura levo para dentro de mim, nela te encontro e que por isso não te consigo tirar de dentro. E que quando esse nevoeiro finalmente desaparecer, da tristeza não ficarão sombras, da ausência não sobrarão mágoas, das saudades vivalma alguma soçobrará mais. Apenas um amor terá ficado por cumprir. Ou não. Mas essa já é outra história, e preciso de ti para a contar.

domingo, 19 de janeiro de 2014

Caraphernelia



No longínquo e nada saudoso ano de 1996, a Sheryl Crow reclamava nuns versos melosos

If it makes you happy, it can't be that bad, if it makes you happy, then why the hell are you so sad?

Não raras vezes, pergunto-me o mesmo na observação esporádica de terceiros que um dia já foram os primeiros. A tristeza e a confusão são indícios claros de que por vezes nem sempre a pessoa que temos ao lado poderá ser a melhor a que podemos (devemos) ambicionar. E penso no quanto me irrita a psicologia de bolso com que não raras vezes tenho tido que lidar. Se sofria e tudo o que me apetecia era tão só desaparecer, calma, tens que te animar, as coisas vão melhorar, vais dar a volta. Se sorrio e pego o touro pelos cornos e a vida finalmente se perspectiva mais excitante do que nunca, calma, vê lá se não estás a camuflar sentimentos, se calhar é melhor falares sobre o assunto. Por muito que pense nisto, sinto que parece nunca haver aos olhos dos outros uma maneira certa de lidar seja com a dor, seja com a excitação. Se uma é demais ao ponto da exaustão, a outra tem o dom de insuflar de adrenalina cada célula do corpo, ao ponto deste quase implodir na ânsia da antecipação. 

Dê por onde der, é imperativo recordar que em primeiro lugar, importa exigir para nós próprios o melhor dos outros - algo de que ironicamente me privei durante mais tempo do que seria razoável. Talvez por isso tenha custado tanto a derradeira despedida. Sabendo-o o melhor naquilo que era, sabendo também que não era o melhor para mim. As verdades doem, e assim cruas ainda mais. 

E a esse doloroso acto de criar espaço dentro de nós às mais difíceis emoções, se chama viver. E ninguém avisou que ia ser assim.

quinta-feira, 16 de janeiro de 2014



Transpiras Verão a gotejos largos, destilas dilecção em cada poro, puro prazer a cada pronúncia, estival percepção sensorial em que me deleito sem nunca das horas saber.

Outonais gracejos os que me jogas em querendo ser engraçado. É tempo de as folhas largarem as árvores, desapego por todo o lado, imperativo o tempero a muito pouco e a quase nada.

Do Inverno, alteras-te alterando-me em aliterações, o afecto é frio, faz jus à estação, arrefeço rápido para logo fingir acobertar-me nos teus longos, sazonais (a)braços.

Febril é a Primavera que me estendes despida, de despedidas sabemos nós, de desprendimentos e de correrias insensatas. E se para ti corro e não calho a acertar-te no colo, imprudente resvalo ao chão onde despontam as primeiras ervas da temporada. Que ao menos me amparam a queda, pois que de chãos pontiagudos está o meu corpo macerado e calejado.

segunda-feira, 6 de janeiro de 2014

photo @ Tiago Reis | Arábia Saudita 2012
A dificuldade reside ali mesmo, óbvia, rectilínea, incontornável. No decifrar das estradas, no deslindar dos sentidos, no desmistificar das opções. Somos afinal um só caminho ou a junção de vários? A fragmentação das nossas escolhas ou a soma das partes? Acredito que o poder último reside em sabermos no fundo e de verdade quem somos afinal. Soberanos de nós mesmos, e dependentes não das mil lutas com os outros e contra os outros, senão apenas da única revolução que se impõe: a revolução feita por nós, cá dentro, desde o momento em que percebemos a verdade, a aceitamos, e nos comprometemos a sermos melhores.

Pois que só assim será possível almejar um dia à felicidade.













De repente, o dia 6 de Janeiro tornou-se o dia em que começam promoções, em que estreiam séries, em que uma qualquer efeméride é assinalada. Em todo o lado 6 de Janeiro, 6 de Janeiro, 6 de Janeiro, numa ameaça gritante à abstracção que neste dia se impõe, mais do que nos outros. 

Precisamente seis dias depois, no dia 12 de Janeiro, outro seis se projectaria a celebrações, se houvesse ainda o que comemorar. 

Bonitas, estas aritméticas.   

6 no dia 12, 30 no dia 6, 6 afinal é 0

Especialmente quando são um reflexo da tábua rasa a que finalmente me agarrei para não ir ao fundo. E não é que estive lá tão perto, mas não afundei? Mas agora o quarto é finalmente feito de paredes brancas. Uma premonitória mancha negra de um homem que caminhava solitário num túnel sombrio não existe mais. Acabou, desapareceu. De candura se veste agora cada canto para onde olhe. E a sensação de rendição é impagável. Rendi-me às evidências, aceitei a derrota, levantei a cabeça. 

Chega de números, vamos falar de emoções. 

domingo, 5 de janeiro de 2014

Dispensa, keep closed



Um cigarro queimava nervoso numa mão, na outra esquecia-se um Porto aquecido à força do calor humano que enchia o tosco bar da Mouraria. O ano mal começou, e já estamos novamente a falar em despedidas. Cravam-se-me os olhos no amarelecido que a parede oferece, embrutecida do tabaco e dos anos, numa vã tentativa de abstracção de mais um adeus, até já, adorei estes dias, volta em Setembro, vou tentar, não sei, os festivais (outra vez, a vida repete-se tanto).

É a primeira deste ano, podia ser a última de umas duas ou três do ano anterior. A verdade é que as despedidas já não fortalecem nem destroem. Já fazem parte. Porque ainda há pessoas que as distâncias não têm a força de nos roubar, a ousadia de pôr à prova a tenacidade com que nos gostamos. 

Das muitas vezes que a vida me colocou entre um olá e um até (nunca) mais, entre um agora e um não se sabe se mais alguma vez, esta é sempre a mais agridoce dessas vezes. Meses podem passar sem saber de ti, se estás feliz ou se seguras o coração nas mãos, mas sei que quando te revejo, de alegria me encho sempre, porque há amizades assim, que perduram no matter what, e a tua é inquestionavelmente uma delas. 

x x x