domingo, 9 de fevereiro de 2014


Ando com um choro atrasado, uns três ou quatro dias sensivelmente. Enfureci-me, ouvi RATM até não poder mais, e depois fiquei à espera de chorar, mas o choro não veio. Pensei ludibriá-lo com a ajuda de um filme. Choro em quase todos, identifico-me sempre com esta ou aquela cena onde revejo sentimentos que eu própria já senti. Escolhi um filme com elevado potencial lacrimejante, mas ao fim de trinta minutos já dormia. A raiva afinal deixou-me entorpecida, vulnerável ao cansaço acumulado de todas as noites mal dormidas. O álcool tão pouco fez alguma coisa por estas lágrimas que insistem em não sair. Bebi, mas ao invés de chorar, sorri apenas. Abracei a minha amiga, e juntas sorrimos ante a imprevisibilidade do que nos vai acontecendo, e nem pela força do abraço sincero que me deu me venceu a vontade de (não) chorar. Então música, senhores. Os mais graves acordes, as delicodoces melodias, rimas arrastadas de amor, de despedida, de querer sem poder ter. 

Nada.

Zero. 

Nem uma lágrima que se pudesse ver. E ainda assim não o sinto reclamar. As costas não se prendem mais de ansiedade nem de dores camufladas, a sede não é mais incontrolável - sim, porque ninguém aguenta beber cinco litros de água num só dia - a melancolia não é mais senão um passageiro estado de espírito com pouco tempo para se acomodar. O corpo parece ter-se estranhamente habituado à não tristeza, a um conquistado e merecido optimismo. Mas quando voltarei afinal a chorar?

quarta-feira, 5 de fevereiro de 2014



Dizer adeus cansa. Cansa muito. 

Despedir daqueles que amamos, renunciar a coisas que nos fazem mal e que sabem bem, deixar que o(s) outro(s) levem com eles partes de nós que só existiram naquele tempo, naquele lugar, com aquela pessoa. 
Despedir de memórias que inevitavelmente foram sendo guardadas em recônditos cantos de nós e onde já não têm mais lugar. 
Despedir de pessoas que nos marcaram o tempo de uma vida, porque um oceano separa as nossas casas, impedindo um desejado abraço, um olhar que no silêncio tudo diz, o aconchego de uma palavra que se oferece de mãos abertas, coração estendido.

Há pessoas que nos vincam forte as emoções, que nos desarmam de amor, que preenchem sem pedir nada em troca. Durante muito tempo, procurei convencer-me - força das nefastas circunstâncias da vida - que "pior não pode ser". Lá atrás já foi muito mau, mau demais para um só coração suportar. Que tudo o resto só podia ser o bom, o belo, o desejado. 

Errada, estupidamente errada, vencida de defesas projectadas pelo longo penar. 

Tenho 28 anos, a entrar nos 29 dentro de dias. A ter mais uns (optimistas) 60 anos pela frente, terei apenas vivido um terço da minha vida. As probabilidades estão contra mim, portanto. 60 anos são aproximadamente vinte e um mil e novecentos dias, noves fora nada, bissextos coiso e tal. Vinte e uma mil e novecentas possibilidades deste coração voltar a ser magoado, enganado, desiludido. E a verdade é que nada me pode preparar para o que está para vir. Nem mantras repetidos à exaustão, nem desfiadas ladainhas como quem ora, nem cartas jogadas numa mesa. Nada pode confirmar ou desmentir se o que vem é bom ou mau. Que a vida tem essa misteriosa coisa de ter que ser vivida para ser vida de verdade. 

E dizer adeus é e sempre será das coisas mais dolorosas de fazer. Seja de pessoas, seja de memórias, seja da imagem percebida que tínhamos dos outros, às vezes de nós mesmos. 

A despedida começa agora, no encontro. Tudo o resto é emoção.

quarta-feira, 29 de janeiro de 2014

metarmofosis

photo @ Telmo Rocha Silva 2014

Não sei em que tenho pensado nem quem tenho sido. Olho para trás e constato que por vezes, para uma coisa nascer, outra tem que morrer. E lá atrás ficou um caminho que podia ter sido o meu, mas ironicamente, não chegou a sê-lo. Senão, uma passagem de um violento luto, para uma vida mais plena, mais fluída, mas minha que dos que tanto me magoaram. Porque nos pensamentos já só viajam boas intenções, desejo puro de amadurecer e me dar à plenitude das coisas sem nelas me emaranhar. E tu, terno e apaixonado, seguraste na minha mão e puxaste-me de um lado ao outro, das trevas à luz, de um cadáver moribundo a metamorfose ambulante, todos os dias eclosão explosiva. Amor, amor, amor, oh tanto amor, meu amor, tanto amor que nunca te cheguei a dar. Porque no fundo de mim adormeci, acossada à pura felicidade que era ter-te só para mim, respirar o teu ar, partilhar a tua cama, ser a tua, a tua única, a primeira, a última, todas elas e nenhuma delas. Querias? Querias que tivesse sido assim diferente, assim ligeiro, assim assim, como tão bem sabíamos ser? Aventurados tantas vezes sem reserva cidade adentro, fodemos todas as esquinas, marcámos todas as praças, demos as mãos em todos os miradouros. E agora o que tenho, o que me deixaste, meu amor? Sabes o quê? Uma cidade que arde insana dentro de mim, que me corrói e provoca e me derrota para logo a seguir me levantar. Uma cidade que me faz e desfaz a cada olhar, a cada vez que te vejo menos lá fora espelhado nela, e dentro de mim, perdido, intenso, aquele olhar que só tu sabes. Fui tua, meu amor, e de mim dispuseste e desfizeste em mil pedaços que agora se reúnem, olha só, quem diria!

E eu que te amei tanto, meu amor!

terça-feira, 28 de janeiro de 2014



O esforço de tentar deslindar traços tornava-se cada vez mais inglório, pesarosamente infrutífero. Abandonou por isso a ideia de tentar compreender onde começava um corpo, onde acabava o outro. Livres de geometrias que os delimitassem, uma linha levava à outra, fazendo dum a perfeita extensão do outro, numa imprecisa matemática cuja solução não seria senão a de um encetado deleite que parecia não mais acabar. A volúpia dos gestos deixando a cada avanço um indelével rasto de lascívia, a nudez sensual à luz exposta, a carnalidade desmedida e incontrolada. Com ferocidade a pele é mordida, repuxada, natural terreno de explorações que se presta a ser.


Os odores perdem-se nos sabores, os membros aleatoriamente enlaçados, confusão, pausa. Um trago disto, um bafo daquilo, inebriam-se os sentidos uma vez mais e outra viagem logo começa. Do prazer, não ficará senão um quarto ocre, abafado, onde dois corpos jazem despidos e abandonados, inertes à figura que por fim os abandona.

quarta-feira, 22 de janeiro de 2014



E eis que sinto que em breve nos separaremos. Minha verdade espantada é que eu sempre estive só de ti e não sabia. Agora sei: sou só. Eu e a minha liberdade que não sei usar. Grande responsabilidade da solidão. Quem não é perdido não conhece a liberdade e não a ama. Quanto a mim, assumo a minha solidão. Que às vezes se extasia como diante de fogos de artifício. Sou só e tenho que viver uma certa glória íntima que na solidão pode se tornar dor. E a dor, silêncio.

Clarice Lispector in Água Viva

A atmosfera empestada de hálitos matinais e cigarros engolidos à pressa por força do frio que lá fora envolve os corpos. Nos vidros condensa-se a respiração pesada daqueles que esta manhã se juntaram a esta viagem que há-de passar o rio, a ponte, os barcos e respectivos contentores. As manhãs revestem-se de acinzentados laivos cinematográficos, os vultos arrastam-se pesarosos, iguais todos os dias, amarrados que estão às dores que carregam debaixo dos casacos das luvas dos cachecóis.

Sofro de os ouvir, condoo-me de os olhar. Esta não é a vida que projectámos, estas não são as viagens que planeámos fazer. O rio, brutalmente silencioso, encara-nos com desdém como quem convida a zarpar, como quem desafia prioridades. Eu respondo-lhe quando calha, já vou, hoje ainda não é o dia, espera. Os outros não sei se o fazem ou se se estremunham sem considerar sequer levantar as amarras e vestirem-se dessas águas que sem vergonha nos desatinam e espicaçam os mais calcados desejos.

Estremunhada também eu desde aquele tal dia. Da varanda, não mais senti um olá secreto que outrora se me estendia, senão uma malfadada aura a ti que porfia em cobrir a minha cidade desde que nela não vivemos mais, e tudo o que nela habita – eu incluída, o meu corpo incluído, a minha alma incluída – qual nevoeiro sebastiano que não há meio de se dissipar. Ouvi em confidência a alguém que cada vez que desse nevoeiro respiro, que cada vez que dessa aura levo para dentro de mim, nela te encontro e que por isso não te consigo tirar de dentro. E que quando esse nevoeiro finalmente desaparecer, da tristeza não ficarão sombras, da ausência não sobrarão mágoas, das saudades vivalma alguma soçobrará mais. Apenas um amor terá ficado por cumprir. Ou não. Mas essa já é outra história, e preciso de ti para a contar.

domingo, 19 de janeiro de 2014

Caraphernelia



No longínquo e nada saudoso ano de 1996, a Sheryl Crow reclamava nuns versos melosos

If it makes you happy, it can't be that bad, if it makes you happy, then why the hell are you so sad?

Não raras vezes, pergunto-me o mesmo na observação esporádica de terceiros que um dia já foram os primeiros. A tristeza e a confusão são indícios claros de que por vezes nem sempre a pessoa que temos ao lado poderá ser a melhor a que podemos (devemos) ambicionar. E penso no quanto me irrita a psicologia de bolso com que não raras vezes tenho tido que lidar. Se sofria e tudo o que me apetecia era tão só desaparecer, calma, tens que te animar, as coisas vão melhorar, vais dar a volta. Se sorrio e pego o touro pelos cornos e a vida finalmente se perspectiva mais excitante do que nunca, calma, vê lá se não estás a camuflar sentimentos, se calhar é melhor falares sobre o assunto. Por muito que pense nisto, sinto que parece nunca haver aos olhos dos outros uma maneira certa de lidar seja com a dor, seja com a excitação. Se uma é demais ao ponto da exaustão, a outra tem o dom de insuflar de adrenalina cada célula do corpo, ao ponto deste quase implodir na ânsia da antecipação. 

Dê por onde der, é imperativo recordar que em primeiro lugar, importa exigir para nós próprios o melhor dos outros - algo de que ironicamente me privei durante mais tempo do que seria razoável. Talvez por isso tenha custado tanto a derradeira despedida. Sabendo-o o melhor naquilo que era, sabendo também que não era o melhor para mim. As verdades doem, e assim cruas ainda mais. 

E a esse doloroso acto de criar espaço dentro de nós às mais difíceis emoções, se chama viver. E ninguém avisou que ia ser assim.

quinta-feira, 16 de janeiro de 2014



Transpiras Verão a gotejos largos, destilas dilecção em cada poro, puro prazer a cada pronúncia, estival percepção sensorial em que me deleito sem nunca das horas saber.

Outonais gracejos os que me jogas em querendo ser engraçado. É tempo de as folhas largarem as árvores, desapego por todo o lado, imperativo o tempero a muito pouco e a quase nada.

Do Inverno, alteras-te alterando-me em aliterações, o afecto é frio, faz jus à estação, arrefeço rápido para logo fingir acobertar-me nos teus longos, sazonais (a)braços.

Febril é a Primavera que me estendes despida, de despedidas sabemos nós, de desprendimentos e de correrias insensatas. E se para ti corro e não calho a acertar-te no colo, imprudente resvalo ao chão onde despontam as primeiras ervas da temporada. Que ao menos me amparam a queda, pois que de chãos pontiagudos está o meu corpo macerado e calejado.

segunda-feira, 6 de janeiro de 2014

photo @ Tiago Reis | Arábia Saudita 2012
A dificuldade reside ali mesmo, óbvia, rectilínea, incontornável. No decifrar das estradas, no deslindar dos sentidos, no desmistificar das opções. Somos afinal um só caminho ou a junção de vários? A fragmentação das nossas escolhas ou a soma das partes? Acredito que o poder último reside em sabermos no fundo e de verdade quem somos afinal. Soberanos de nós mesmos, e dependentes não das mil lutas com os outros e contra os outros, senão apenas da única revolução que se impõe: a revolução feita por nós, cá dentro, desde o momento em que percebemos a verdade, a aceitamos, e nos comprometemos a sermos melhores.

Pois que só assim será possível almejar um dia à felicidade.













De repente, o dia 6 de Janeiro tornou-se o dia em que começam promoções, em que estreiam séries, em que uma qualquer efeméride é assinalada. Em todo o lado 6 de Janeiro, 6 de Janeiro, 6 de Janeiro, numa ameaça gritante à abstracção que neste dia se impõe, mais do que nos outros. 

Precisamente seis dias depois, no dia 12 de Janeiro, outro seis se projectaria a celebrações, se houvesse ainda o que comemorar. 

Bonitas, estas aritméticas.   

6 no dia 12, 30 no dia 6, 6 afinal é 0

Especialmente quando são um reflexo da tábua rasa a que finalmente me agarrei para não ir ao fundo. E não é que estive lá tão perto, mas não afundei? Mas agora o quarto é finalmente feito de paredes brancas. Uma premonitória mancha negra de um homem que caminhava solitário num túnel sombrio não existe mais. Acabou, desapareceu. De candura se veste agora cada canto para onde olhe. E a sensação de rendição é impagável. Rendi-me às evidências, aceitei a derrota, levantei a cabeça. 

Chega de números, vamos falar de emoções. 

domingo, 5 de janeiro de 2014

Dispensa, keep closed



Um cigarro queimava nervoso numa mão, na outra esquecia-se um Porto aquecido à força do calor humano que enchia o tosco bar da Mouraria. O ano mal começou, e já estamos novamente a falar em despedidas. Cravam-se-me os olhos no amarelecido que a parede oferece, embrutecida do tabaco e dos anos, numa vã tentativa de abstracção de mais um adeus, até já, adorei estes dias, volta em Setembro, vou tentar, não sei, os festivais (outra vez, a vida repete-se tanto).

É a primeira deste ano, podia ser a última de umas duas ou três do ano anterior. A verdade é que as despedidas já não fortalecem nem destroem. Já fazem parte. Porque ainda há pessoas que as distâncias não têm a força de nos roubar, a ousadia de pôr à prova a tenacidade com que nos gostamos. 

Das muitas vezes que a vida me colocou entre um olá e um até (nunca) mais, entre um agora e um não se sabe se mais alguma vez, esta é sempre a mais agridoce dessas vezes. Meses podem passar sem saber de ti, se estás feliz ou se seguras o coração nas mãos, mas sei que quando te revejo, de alegria me encho sempre, porque há amizades assim, que perduram no matter what, e a tua é inquestionavelmente uma delas. 

x x x 

domingo, 29 de dezembro de 2013



Açafrão-da-terra, cardamomo, coentro, gengibre, cominho, casca de noz-moscada, cravinho, pimenta canela. 

Como virgens noivas que algum noivo esperem, aguardam o momento em que amassadas no almofariz se hão-de abrir em sabores de outro continente, vendo levado ao expoente máximo todo o seu potencial sensorial. Apertadas umas contra as outras, em caril despertam, retiradas ao sono mole em que se viam até então adormecidas. 

Delicio-me no movimento que os teus lábios desenham enquanto falam encantados sobre especiarias. Encantada me encontro também, pendurada que fico na cadência de cada palavra que reproduzes, e que sempre me sabe a sabores que desconheço. De lacónico pouco tens, e descreves cada sabor e cada aroma como só um ser apaixonado poderia descrever o corpo do amante a que calhe entregar-se. E por distintos que sejam os sons que te oiço, em todo e cada um deles reconheço apenas o sentido da proibição, um instinto pecaminoso que invariavelmente remete para o eterno platonismo de que são feitos os ténues laços que nos prendem. O fumo que te ofereço à boca sabe também ele a interdição, e de to dar a conhecer me contento, por reconhecer como válida cada negativa que impera esta estranha e nunca começada relação. 

Da tua boca pudesse eu provar, e resolver de uma vez por todas esta incógnita que me assola. Saberás a cardamomo ou a café? A fumos ou a canelas distantes? Um sarilho, tu és.

quinta-feira, 26 de dezembro de 2013



Estou me criando. E andar na escuridão completa à procura de nós mesmos é o que fazemos. Dói.
Clarice Lispector in Água Viva

Tive em tempos um alpendre onde me sentava sem pensar para pensar. Ali tomava a primeira refeição do dia, prostrada à imutável beleza do verde, sorvendo apaixonada cada pintalgada sua que calhasse a encher-me de alegria a alma e os sentidos. Ali me sentei muitas vezes para chorar os meus mortos, e me sentei outras tantas para sentir e amar os vivos. Vezes tantas que não as sei contar foram as que ali me encostei com as minhas borboletas. Dias muitos, incontáveis e perpétuos, vivem colados ao mais fundo da minha memória, em que sentia o amor cambalear-se-me embriagado dentro do estômago, bebedeira apaixonada cuja ressaca ainda sinto tolher-me os movimentos. Em me vergar ao viver de uma vida como nunca houvera tido, feliz, doce, plena e transparente, dei por mim enredada em tanto amor, e de tanto amar o amor que sentia amar, em amor me desfiz para não mais me refazer. E desfeita e enfeitada, encetei a mais dura trajectória dos desafectos e das novas afeições.

As borboletas, essas teimam em não levantar voo. Frágeis mas tenazes, agarram-se-me ao estômago com quanta força têm e de lá se recusam a partir, numa maquinal vivência que as mantém reféns de um instinto ao qual não se querem ver presas. A última vez que me sentei no alpendre, de mansinho chorei a perda sofrida enquanto daquele verde me benzia uma última vez, e implorando roguei às borboletas que no alpendre ficassem, que não mais parasitassem dentro de mim, que me deixassem também eu largar o casulo e metamorfosear-me em borboleta, que aliás não sei ser. De borboletas pouco entendo, já de casulos e metamorfoses podia escrever dias a fio sem me faltar o argumento, tão bem que conheço as mecânicas que os norteiam.


A dor quando vive dentro de nós, traça-nos estes caminhos onde não sabemos mais ser dóceis animais. Nem borboletas, nem unicórnios, nem aves primaveris, nem outros que tais. Passamos a ser bestiais feras difíceis de domar, felinos de garras assanhadas, vorazes por fora, feridos por dentro. Aquele que souber amansar o feroz instinto da sobrevivência e sarar os golpes que por tanto tempo sangraram, terá à sua espera o mais perfeito ser que se poderia esperar encontrar nesse misterioso cruzamento entre as garras e as asas, entre os altos voos e as caçadas nocturnas. E de escoriações e de lágrimas não mais se ouvirá falar, senão de risos distribuídos à força desse amor violento, sagaz e tão desejado.

sábado, 21 de dezembro de 2013



As pequenas peças do isqueiro, apertadas umas contra as outras, esgrimem o som metálico que antecipa mais um cigarro. Aceso o vício, oiço o fumo percorrer o caminho que o separa entre os lábios e as paredes dos pulmões, para ser depois expelido corpo fora. Os trejeitos tecidos pela garganta no exercício da sucção e da expulsão ouvem-se à distância. O corpo nu devia ser visível. Mas não é, nunca o foi, nem nunca o há-de ser. Só os sons do fumo acima abaixo acima abaixo são evidência de uma presença mais passageira que o tempo que tentamos agarrar e sempre nos foge. Assim te vestiste de tempo, fugaz e esquivo, e assim me despiste à força das evidências, exposta, despojada, vulnerável. 

A noite que hoje começa é outra. E nela nem tempo que escapa, nem corpos que não se despem, músicas que não se ouvem, contactos que nunca chegam a tocar. E a individualidade que é afinal tão boa. 


quarta-feira, 18 de dezembro de 2013

Gil Dionísio | photo @ Isaac Pereira 2012


Pego no caleidoscópio para te ver mais de perto. Desfaço-te em mil pedaços que hão-de suster-se por todo um dia e toda uma noite no mais alto recanto do meu imaginário. Acordaste heróico e poético hoje, e do meu peito procuro sem descanso exorcizar-te, expurgar cada pegada que me imprimes, cada pedaço da tua derme que vai ficando suspensa na matéria e no nada. E doem-me tanto, mas tanto os teus olhos. De te olhar vivo num arrepio constante, a tua dor acossada à minha, imberbe e serena, como dor que acaba de sair do ventre ensanguentado que pare esta noite.

Do heroísmo e da poesia de que hoje me deste a beber, extraí o mais delicado néctar, para logo a seguir dele te hidratar também. Ousada, insinuarei também um pé descalço, depois o outro, e hei-de seguir até ti os acordes com que me atrai e submete o violino que ora abraças. 

Não me derrames mais esse olhar. Deixa de ser penumbra e faz-te lua cheia, que dela preciso para me alumiar os caminhos. E este dia e esta noite que ainda temos pela frente serão então por fim nossos, seja para sempre, seja para nunca.

terça-feira, 17 de dezembro de 2013

Não conheço a proibição. E minha própria força me libera, essa vida plena que se me transborda. E nada planejo no meu trabalho intuitivo de viver: trabalho com o indireto, o informal e o imprevisto.

Clarice Lispector, in Água Viva



Sei de cor os dias todos, ou quase. O da água, o do gás, o da luz e da internet, da renda, do IMI, do imposto automóvel e dos seguros todos. Raramente sou apanhada na curva, aprendi a ser assim para ver se ia caindo do cavalo menos vezes, como chegou a acontecer umas quantas vezes. Sou matemática, calculista, arrumada no que aos aspectos práticos da vida diz respeito.

Mas quando anoitece, o caso muda de figura. O caos atrai-me, a imprevisibilidade do ser humano tem-me amarrada a olhar para ela como quem antevê um tornado, mas não corre a esconder-se no abrigo. Gosto de me sentir sacudida nas minhas crenças e nos meus preceitos, desafiada pela aleatoriedade que os acontecimentos assumem, aturdida nos caminhos que se vão proporcionando – descalça na maioria das vezes. Porque se durante o dia procuro não me sujeitar ao desconhecido, a noite entrega-me à fúria dos elementos, à impetuosidade carnavalesca que as trevas sempre carregam consigo. 

domingo, 15 de dezembro de 2013



Almiscarada fusão de terra, açúcar mascavado, chuva. Deslizo a caneta pela tua pele, numa esperança vã de marcar o caminho para essa fragrância que me tem refém das manhãs, das tardes, das noites. Prepotência sensorial, essa dependência olfactiva que pesa mais que a invasão do toque, que a pendência do sabor, que a força das palavras, que a intensidade dos olhares. Tudo se resume e encontra nesse erotismo disfarçado de sei lá o quê, de folhas caídas no Outono, de bambus abandonados em cantos de salas, da austeridade dos afectos, das rixas entre o ir e o ficar. Escapo-te como água por entre os dedos, e tu ingénua julgas-te rainha e senhora dos rios e dos mares, que podes afundar embarcações ou resgatá-las ao fundo do mar. Mas não podes. Julgas que podes, mas não sabes que não podes. O teu único poder, é este de me deixares entranhados na palma das mãos esses odores que não se deixam vencer por loções, nem por águas, nem por outras fragrâncias. Valha-nos isso, pois que no instante em que aproximo a mão ao nariz, de novo viajo e me velo aos imperativos do prazer.

quinta-feira, 12 de dezembro de 2013



Subo a Almirante sempre na mesma velocidade. Tenho os sentidos entorpecidos, o corpo violentamente abusado pela dor, as mágoas que foram atiradas ao esquecimento fervilham agora mais do que nunca. Pouco uso dou às dezoito velocidades que a bicicleta me proporciona. Uma velocidade só, sempre a mesma, ainda que os joelhos reclamem, o objectivo é chegar ao destino, com ou sem esforços que seriam desnecessários. Ignoro a quebra de tensão que o corpo me ameaça, desprezo o vómito que se assoma à garganta a cada segundo, e sigo de cabeça erguida, perdida, garganta seca, tanto por gritar e por dizer e por sentir e por doer. Sinto-me tomar de assalto a avenida com uma obstinação que nunca me reconheci. Mais um momento de viragem, em que o peso inteiro do passado me é despejado em cima, deixando claro como água o que tive a mais, mas acima de tudo, o que tive de menos. E de menos não se constroem caminhos. De menos se fragilizam egos, de menos se confundem personalidades, de menos se tinge de cinzento a identidade perdida  no meio de tantas batalhas, tantos afectos distorcidos, tantos amores mal vividos, mal interpretados, mal aproveitados, mal entendidos. Ter criado para mim própria um paradigma de bases tão frágeis não me preparou de todo para aquela que será provavelmente a maior crise de identidade que já atravessei - e que antevi tantas vezes ao longo dos anos. Só não pensei que fosse ser tão crua, física, dolorosa. Perceber quem sou é difícil, e perceber quem quero ser... ainda mais. Mas de uma coisa estou certa: do meu vocabulário, quero retirar o menos, e incluir o mais, MUITO MAIS. Porque como a borboleta luta por sair do casulo, assim estou eu, a deixar uma mórbida cápsula onde me guardei até hoje. HOJE. E só até hoje. Porque amanhã hei-de erguer-me viva e inteira, como se pela primeira vez abrisse ao mundo os olhos.

E tudo vai ser melhor.


Vícios? Vários.

Tomar banho de água a escaldar, até a pele não aguentar mais. Dançar de forma ridícula em cuecas, como jamais seria capaz de fazer em público. Fumar um cigarro quando dispara a ansiedade. Esperar parada na casa de banho que a água do banho se evapore do corpo sem ter que a secar com a toalha. Sentir o frio apoderar-se dos membros por puro masoquismo, na esperança de que este tolhe todas as outras sensações que não quero sentir. Chegar antes da hora a todo o lado. Escrever o que me apetece sem antever consequências. Misturar pessoas de diferentes espectros e observar a inobservância da desconfiança com que invariavelmente tiram medidas mutuamente. Colocar-me em situações das quais podem resultar catástrofes e matutar dias a fio nas possíveis consequências. Comprar sapatos baratos, mesmo sabendo que não vão durar mais do que uma estação, só porque são bonitos. Dormir com um saco de água quente, mesmo sendo a coisa menos sexy do planeta. Exigir demasiado dos outros. Corrigir o português a tudo o que leio. Correr atrás daquilo em que acredito.


Correr atrás daquilo em que acredito?

domingo, 8 de dezembro de 2013

Pronto, pensei, já fomos. Voluntariamente lançados à boca do lobo, que nem se esconde numa toca nem se camufla a olhares indesejados. O lobo ali exposto, visível, de frente à presa que se lhe oferece sem cerimónias nem rituais. Predador, presa, predador, presa. Um vence, o outro sai vencido. O corpo derrotado, destronado na batalha pela superioridade numérica. Dois é melhor que um. Mas se um vence, e não luta nem disputa mais territórios, o outro sai de cabeça baixa, descabelado e ferido, escalpe exposto, a imagem mais fiel que um perdedor pode ter. 


sexta-feira, 6 de dezembro de 2013


Agruras não rima com ternuras. 

E carícias não rima com malícias. 

(Mas rima com delícias, e logo me derreto)

As agruras atiram ao chão, as ternuras ao colchão. 

E se nas carícias vive paixão, das malícias não vem 


senão... Hum.